– Juro que me quedaria toda a noite a ouvir-vos! – protesta Fernão.

– A Fortuna bafejou-vos! Ficastes ricos – troveja o coro dos proscritos.

– Sem dúvida! Todos enriqueceram, contudo aqueles que embarcaram na Frol de la Mar de Afonso de Albuquerque perderam tudo, muitos deles a vida, no naufrágio da nau, junto a Samatra. O governador salvou-se numa jangada, resgatando do mar apenas uma menina, filha de uma escrava sua, que ele teve nos braços até ser recolhido. Mas isso são outras histórias que só conhecemos de ouvir contar.

A Frol de la Mar! Nos confins da China um bando de portugueses cativos ouvia os testemunhos vivos dos heróis que haviam participado nas primeiras conquistas e viagens de descobrir que deram a Portugal um império na Índia. Contavam factos, falavam de nomes que ilustravam partes obscuras nas buscas e inquirições que Fernão fizera em Samatra, por isso ardia de impaciência para esclarecer a dúvida que lhe martelava a cabeça, trazendo-lhe à memória uma outra conversa que tivera com Pêro de Faria, precisamente em Malaca, no ano de trinta e nove.

– Esse António de Abreu e Francisco Serrão – pergunta, já de pé, pronto para sair – são os mesmos que Afonso de Albuquerque enviou com uma armada em busca da Ilha do Ouro.

– Foram eles, sem dúvida, com Simão Afonso Bisagudo! O governador que estava prestes partir de Malaca, enviou-os a Java e às Molucas, para anunciarem a conquista e concertar pazes com os seus reis, contudo murmurava-se que ele os mandara descobrir a Ilha do Ouro.

– E descobriram-na? – pergunta Borralho.

– Se a descobriram, calaram-se muito bem calados. Falou-se muito dessa viagem, logo seguida de outras, a cada ano.

– Falareis delas outro dia, que já é tarde! – corta Vicente. – Temos agora de tomar ainda mores precauções porque as patrulhas da guarda acham toda a gente suspeita e atiram a matar.

142 Comentários do Grande Afonso de Albuquerque, parte III, de Brás de Albuquerque. O Papa ordenou uma procissão soleníssima e disse missa pontifical, em honra do grande feito português.

143 Da Segunda Década da Ásia, livro sexto, de João de Barros.

XXII

Se és paciente num momento de ira, escaparás a cem dias de tristeza

(chinês)

Do Tratado em que se contam muito por extenso as cousas da China:

Além destes Mogores, correm ao longo da China os Tártaros que é mui grande reino e de muita e inumerável gente. É esta gente vermelha comumumente e não alva, andam nus da cinta para cima, comem carne crua e untam os corpos com o sangue dela, pelo qual comummente são fedorentos e têm mau cheiro. Afirmou-me um china velho que algumas vezes quando eles vinham contra as terras da China, se o vento vinha da parte donde eles vinham, que eram sentidos pelo cheiro; quando vão à guerra levam a carne crua debaixo de si para comerem, comem-na desta maneira e untam-se com o sangue para se fazerem mais fortes e robustos e se provocarem na guerra a crueldade. Pelejam também estes a cavalo com arcos e frechas, e usam de treçados, com estes é contínua a guerra dos Chinas.

Têm os Chinas cem léguas (dizendo outros que serão mais) de muro antre si e eles, onde há sempre guarnições de gente para defesa das entradas dos Tártaros.

(De Frei Gaspar da Cruz para El-Rei D. Sebastião, 1569)

Os portugueses, mesmo os naturais do interior das terras nortenhas, tinham sofrido muito em Quansy com os rigores do frio, trazido pelos grandes nevões que tudo cobriam, deixando apenas à vista alguns troços da muralha. Era uma neve miúda, tão espessa que parecia nevoeiro, impedindo-os de se verem uns aos outros, acompanhada de um vento frio que soprava de rijo, trespassando-lhes os andrajos e as carnes, enregelando-os até aos ossos. Com muito custo caminhavam através do manto branco que em certos sítios lhes chegava aos ombros e peitos, enterrando-se a cada passo, cujo esforço para se libertar os deixava exaustos, banhados de suores frios e a tremer de febre.

Quando a neve endurecia, toda a terra se transformava numa superfície gelada, escorregadia como uma lousa untada, não lhes restava outro remédio senão deitarem-se de bruços e deslizarem com o corpo como se nadassem, durante largos troços do caminho. Deixavam de sentir os pés, mãos e rosto, com o rigor do frio. Joaquim Pereira e Álvaro de Melo por pouco não morreram, quando os pés lhes incharam e apodreceram. Salvou-os Fernão, que aprendera a tratar do escorbuto e lhos queimou com brasas vivas e ferros incandescentes.

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