Contava-se ainda, sobre estes diabos vermelhos, que Alexandre da Macedónia os perseguira sem tréguas, empurrando-os até aos confins mais sombrios das terras do norte, forçando-os a refugiarem-se dentro de montanhas acessíveis apenas por uma passagem que o magno conquistador selara com uma porta de ferro. Fernão sabia que essas montanhas não eram senão as que agora se achavam ligadas pela Grande Muralha, só não estava seguro de serem elas mais fortes do que a mágica porta de Alexandre para suster o ataque das hordas.

No ano anterior, Altan Khan tinha enviado emissários à fronteira de Datong, a pedir que lhe fossem concedidos privilégios comerciais para trocar os seus cavalos e ovelhas por cereais e tecidos. O imperador recusara e os tártaros, ameaçados pela seca e pela fome que grassava nas suas terras, assaltaram e pilharam inúmeras povoações na raia de Shanxi. Com a Primavera e o degelo, regressara o alarme da presença do ancestral inimigo junto à fronteira, a preparar-se para um assalto em maior força a Quansy. Era constante a comunicação das sentinelas nas torres de vigia da muralha, com bandeiras coloridas ou sinais de fogo, segundo a gravidade da ameaça.

A população tornava-se mais inquieta, a soldadesca, reforçada por novos contingentes, mostrava-se dia a dia mais desconfiada e brutal, vendo um inimigo a cada esquina, prendendo quem ousava andar de noite pelas ruas. Os bonzos e os adivinhos profetizavam desgraça, anunciando que Mercúrio, o astro que regia os bárbaros, aparecera no céu com uma cor vermelha, sinal de que fariam guerra iminente e levariam a vantagem sobre os defensores da cidade. O mau augúrio era reforçado pela presença de Vénus, protectora das hordas que se regulavam por ela, lançando-se ao ataque dos povoados ou cidades quando ela brilhava e retirando-se quando ela empalidecia. Apesar do medo, a população confiava na Changcheng, a Grande Muralha, para a protecção de Quansy e dos seus habitantes contra os ataques dos tártaros, e prosseguia na sua faina de todos os dias.

Vicente não desistira da ideia de os casar com as filhas do seu companheiro de armas, insistindo com ambos sobre as vantagens daquela união, até Fernão e Cristóvão já não terem argumentos para lhe contraporem, porque as longas práticas sobre Meng e Lijie lhes tinham acirrado as vontades, já de si predispostas à admiração da beleza e outros predicados das duas donzelas, sendo-lhes agora quase impossível não pensarem nelas noite e dia.

Sem dar conta das suas demandas aos presumíveis noivos, Vicente levara a peito o seu papel de casamenteiro, tratando de auscultar o ânimo do pai das moças sobre o delicado assunto. Calvo não o desiludira, recebendo o pedido com muito prazer, dando o seu consentimento, com a condição dessas uniões terem o acordo da esposa e serem da vontade das filhas, por não querer fazê-las infelizes com maridos a quem não tivessem afeição. Kexin aprovara o duplo matrimónio, sobretudo porque os pretendentes eram cristãos – requisito mais difícil de achar naquela nação do que agulha em palheiro –, com grande júbilo das filhas que há muito amavam os dois infelizes estrangeiros.

Para Fernão e Cristóvão esse amor fora uma surpresa de que ainda não se tinham refeito. Sabiam-se estimados das moças, mas não contavam ser amados por elas, atribuindo à gentileza e educação próprias de donzelas chins de boas famílias os rubores, os risos, as canções e o prazer que mostravam em vê-los. Passaram a visitá-las na condição de noivos, a trabalhar com Calvo, como Vicente previra, embora fossem dormir à cabana com os restantes companheiros, fazendo a sua parte nas tarefas do grupo, ignorando os remoques e chistes dos invejosos, para não lançarem achas na fogueira do seu descontentamento.

Em tudo isto pensa Fernão, ainda aturdido com a nova situação em que se vê e pela sucessão vertiginosa dos acontecimentos ocorridos nos meses da sua estada em Quansy. Cristóvão, perdido de amores por Lijie, deixara de falar no regresso à pátria, parecendo muito mais interessado em fazer perguntas a Calvo ou à parentela chinesa de Kexin sobre os mesteres que as autoridades da província de Shanxi permitiam exercer aos estrangeiros.

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