Esmorecida a curiosidade pelos folangji, eram raros os convites dos senhores para ouvirem as suas histórias e o trabalho escasseava, disputado pelos chins prisioneiros ou livres, que também viviam miseravelmente naquela região fronteiriça, assolada há mais de um lustro por secas, tempestades de areia e pragas de gafanhotos, que arrastavam atrás de si a fome e as febres. Saíam todos os dias em busca de trabalho, sujeitando-se às tarefas mais humildes, menos os que presumiam de mais honrados e preferiam esmolar pela cidade a fazerem trabalhos que, segundo afirmavam, os rebaixavam por serem indignos da sua fidalga condição.
Após as primeiras visitas do bando, Calvo deixara de os convidar e receber em sua casa, cansado das suas contínuas disputas, a que nem as ameaças de castigo do chaem, nem as juras feitas sobre a cruz haviam posto fim, antes pareciam exacerbar-se com os rigores e maleitas do Inverno que os obrigavam a passar mais tempo juntos. Kexin queixara-se de que eles estavam sob a influência de Lang, a estrela dos brigões, mas o marido sabia que a verdadeira razão era o seu temor de que algo de nefasto pudesse acontecer a Meng ou a Lijie.
Só Vicente, Fernão e Cristóvão eram bem-vindos, estimados como parentes, um por ter sido companheiro de armas de Calvo e os outros dois pela sua boa índole, trato agradável, além de saberem falar a língua quase tão bem como o seu anfitrião. Quando as neves começaram a derreter com a chegada da Primavera, para não sobrecarregarem a família, em paga do bom acolhimento, os três companheiros só aceitavam a hospitalidade da sua mesa em troca de serviços, como ir buscar uma carga de lenha, vender ao mercado os produtos da horta e do galinheiro ou os bordados de Kexin e das filhas.
Para Vicente era evidente o fascínio que Ana-Meng e Isabel-Lijie causavam respectivamente em Fernão e Borralho, parecendo-lhe também que as atenções dos dois companheiros não caíam em saco roto, porque as duas moças mostravam grande prazer na sua companhia, ruborizando-se e rindo muito com os seus galanteios, aceitando encantadas os pequenos presentes que eles lhes traziam. Não era a primeira vez que lhes fazia alusões aos amorios ou lhes lançava alguns chistes brejeiros, mas, nesse dia, decide representar o papel de alcoviteiro e falar-lhes a sério do futuro.
– Com a pena agravada em degredo perpétuo e sendo Quansy tão longe do mar – começa, procurando disfarçar a amargura –, estamos condenados a viver aqui para sempre. Eu já não tenho muito a esperar do futuro, mas vós deveis pedir a Calvo que vos dê as filhas em casamento, para refazerdes as vossas vidas.
A caminho da casa do português, carregados com feixes de lenha, os dois amigos quase largam a carga, ao estacarem de golpe, aturdidos.
– Não mais volver a Portugal? Quereis tirar-nos a esperança que nos mantém vivos? – a voz de Borralho soa como um soluço.
– Se fosse possível a fuga, Calvo não estaria aqui hoje. Ou crês que ele não o tentou?
– Penso nisso muitas vezes – concorda Fernão, com desânimo. – Só um milagre nos poderia tirar daqui e creio que Deus nos abandonou.
– Com os nossos companheiros, sempre engalfinhados uns nos outros, em constantes quezílias e contendas, não há milagre que nos salve. Tendes de vos apartar do resto do bando, antes que seja demasiado tarde. O melhor que podereis fazer é desposar as moças.
– Desposá-las? Mesmo que elas quisessem casar connosco, que temos nós para lhes oferecer? – protesta Borralho, com a imagem do doce rosto de Lijie a encher-lhe a alma.
– Mal ganhamos para comer. Não temos onde cair mortos! – reforça Fernão. – Os pais jamais darão o seu consentimento.
– Eles têm-vos amizade e não duvido de que hão-de preferir para genros dois cristãos, para mais portugueses honrados, a quaisquer chins idólatras, embora mais ricos, que as possam pretender, cousa difícil de acaecer com gente tão avessa aos estrangeiros. Calvo sabe isso, ciente de que podeis ajudá-lo no seu negócio e a proteger a família de perigos como os assaltos dos tártaros. Ele já não é novo, tem duas filhas, moças formosas, e dois filhos pequenos. Sabeis o que os espera.
Meng e Lijie seriam presas de escol para os bárbaros tártaros, a sua beleza e juventude talvez lhes salvassem a vida, mas não as poupariam à escravatura dos seus haréns. Fernão conhecia bem a reputação destes cavaleiros da estepe, verdadeiros demónios saídos do Tártaro, as regiões infernais. No Antigo Testamento estas hordas crudelíssimas e impiedosas de archeiros encarnavam a profecia do Apocalipse, vivendo nas terras encobertas de Gog e Magog, à espera do sinal de Deus para lançarem os seus cavalos a galope sobre a terra, como um furacão, destruindo tudo na sua frente.