Depois de os ter retirado da prisão, Tileymay mandara pôr-lhes correntes nos pés e pescoço, mantendo-os sempre separados dos outros prisioneiros, de modo que não tinham podido perguntar se alguém sabia do paradeiro de Calvo e da sua família ou tinha visto as duas moças entre as cativas.

Fernão sente-se afundar em desânimo e remorsos, sem forças para sofrer este castigo divino, que se abatia impiedoso sobre a sua cabeça, decerto por ter andando no corso, cometendo ou deixando cometer crimes semelhantes aos dos tártaros que tanto o indignavam agora. Bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz. Como em Nouday, quando entraram vencedores na cidade, para resgatar os cinco portugueses que o mandarim se recusara a entregar.

António de Faria dera licença aos homens para saquearem o lugar à escala franca e o espólio fora riquíssimo, sendo o principal galardão a grande quantidade de donas e donzelas ali tomadas, violadas diante das famílias, arrebanhadas das suas casas, arrastadas para os barcos dos invasores, atadas de quatro em quatro com os morrões dos arcabuzes, chorando e suplicando compaixão aos seus algozes, que riam e cantavam, antegozando a posse de tão apetitosas fêmeas.

Ainda muito ferido pelo desamor de Huyen, trazendo cravado na alma o olhar de aversão que ela lhe lançara antes de morrer, Fernão julgara ver a mesma expressão de asco nos olhos da cativa que lhe coubera em sorte naquele saque. Cheio de raiva, lançara-se sobre a indefesa donzela, cuspindo-lhe insultos soezes, violara-a brutalmente, vingando-se do seu vexame, na dor e humilhação da sua vítima. Cevada a fúria e cheio de remorsos, fugira sem nada levar da casa, nem sequer a sua presa que soluçava nos braços da mãe.

Sobressalta-se, saindo do seu alheamento, ao ouvir falar a língua chim com um estranho acento e faz sinal a Borralho para que preste atenção aos homens da fogueira. O capitão Tileymay afastara-se por momentos com o seu lugar-tenente e o convidado que estava sentado mais perto dos prisioneiros, vendo que eles os observavam, perguntara na língua dos seus inimigos:

– De que nação sois? Como vos cativaram os chins?

– Somos mercadores de Malaca, embora oriundos de uma nação do outro lado do mundo – responde-lhe Jorge. – Os lauteaas prenderam-nos, sob falsas acusações, para nos roubarem as mercadorias e degradaram-nos para Quansy.

– Sois mercadores? Cuidei que éreis guerreiros. Não pelejais na vossa terra como nós na nossa? Se o vosso rei não é inclinado à guerra, não pode ser um grande rei.

– Senhor, sim! – replica Jorge, a tomar-lhe o pulso e entrando na jogada. – El-rei nosso senhor é muito grande, poderoso e rico, todos nós fomos criados e exercitados na guerra, desde muito pequenos.

O tártaro diz para os companheiros:

– Vinde falar com este cativos que me parecem homens de muita valia e siso.

Os três acercam-se curiosos e os portugueses sentem-se como animais raros numa jaula de feira.

– Como se chama a vossa nação? A que distância está daqui?

– Somos do reino de Portugal, o qual dista da cidade de Pequim quase três anos de caminho por mar.

– Quanto? Quanto? – perguntam incrédulos.

– Três anos! – confirma Fernão, incapaz de se manter afastado de qualquer novidade.

– Porque não vindes antes por terra, em vez de vos aventurardes aos trabalhos do mar?

– A terra é muito grande – explica Jorge – há nela reis de diversas nações que o não consentiriam.

– Que vindes buscar a estes lugares? Porque vos aventurais a tamanhos trabalhos?

Jorge e Fernão dão-lhes as suas razões com as mais enfeitadas palavras que lhes ocorrem. Os três oficiais ficam uns instantes como que suspensos e o que primeiro os interpelou, abanando três ou quatro vezes com a cabeça, diz para o mais velho:

– Esta gente, ao vir conquistar terra tão distante da sua pátria, dá claramente a entender que deve haver entre eles muita cobiça e pouca justiça.

– Assim parece – responde-lhe o outro –, porque homens que por indústria e engenho voam por cima das águas todas, para adquirirem o que Deus lhes não deu, ou a pobreza neles é tanta que de todo lhes fez esquecer a sua pátria, ou a cegueira que lhes causa a sua cobiça é tamanha que por ela negam a Deus e a seus pais147.

Riem-se os outros dois com a resposta e motejam um pouco entre si, na sua língua, que nenhum dos portugueses entende.

– Se algum de vós outros – diz-lhes o que aparenta ter maior prestígio –, pelo muito que haveis visto do mundo, souber de algum ardil com que o nauticor possa tomar este castelo, eu vos asseguro que em vez de serdes vós seus cativos, será ele vosso.

– Se ele nos der um assinado seu em nome d’el-rei – responde-lhe o desaforado Mendes, inconsideradamente, perante o pasmo dos companheiros que seguem a prática, mal ousando crer no que ouvem – de nos mandar pôr seguros no mar da ilha de Ainão, donde possamos ir livremente para a nossa terra, quiçá eu lhe faça conquistar o castelo com muito pouco trabalho.

O tártaro escancara os olhos, alvoroçado pela novidade, avisando-o em tom grave:

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