– Vê bem o que dizes, porque te asseguro que, se isso fizeres, te será concedido tudo o que pedires e muito mais ainda do que podes pedir.

É uma promessa que contém uma ameaça velada. Fernão, apercebendo-se da alhada em que aquele tunante sem juízo os está a meter, brada-lhe alarmado, quando o vê abrir a boca para falar:

– Que fazes, fumoso? Queres matar-nos a todos?

– Muito ventam os teus foles, rascão! – grita-lhe Borralho, com mais ódio aos tártaros do que aos chins, pela perda de Lijie. – Não te abastam os apuros em que estamos metidos?

– Como podes prometer-lhes o impossível, embusteiro!? – berra-lhe Vicente. – Estás a jogar com as nossas vidas.

Embora sem terem compreendido tudo o que ele prometera aos invasores, pelo alarme dos três companheiros, os restantes portugueses percebem que Jorge Mendes acaba de os pôr em grave perigo e soltam os seus protestos em grande berraria, pedindo explicações.

– Bofé, senhores! – responde-lhes o folião, um tanto agastado. – A minha vida, estimo-a agora bem pouco, porque estes bárbaros não nos darão a liberdade sem resgate e nós não temos nada de nosso. Se vivermos, será como seus escravos. Já que assi é, tanto monta morrer hoje, como amanhã. Lembrai-vos do que os vistes fazer em Quansy, por aí julgareis o que nos podem fazer. Eu escolho morrer com honra, a combater.

Sem compreenderem uma só palavra da altercação dos folangji, os tártaros mostram o seu pasmo, com uma delicada repreensão:

– Falar alto e desentoado é mais próprio de mulheres, pois não têm freio na língua nem chave na boca, que de homens que cingem espadas ou tiram com frechas na guerra. Sossegai e, se é isso que vos apoquenta, crede-me quando vos afirmo que se puserdes em efeito o que acabais de prometer, o nauticor vos concederá tudo o que lhe pedirdes.

Apesar do que disse aos companheiros, Jorge Mendes parece embaraçado, como se não esperasse que a sua bazófia chegasse àquele ponto, e tenta arrepiar caminho:

– Em sendo manhã, deixai-me ver muito bem o castelo todo à roda, então vos direi o modo que se poderá ter para o tomar.

– Eu darei conta da vossa promessa ao Mitaquer – conclui o tártaro, satisfeito.

O capitão Tileymay regressa nesse instante e os seus hóspedes despedem-se para recolherem às suas tendas, deixando os prisioneiros mergulhados em desespero, a cobrir o fanfarrão de pragas e maldições.

Jorge Mendes cavalga ao lado do Mitaquer, como seu mestre do campo, com um novo espírito e ufania que os companheiros há muito não lhe viam, principalmente nos dias anteriores, quando parecera corrido pelas suas repreensões e arvoado da cabeça, talvez por só então ter tomado consciência dos apuros em que a sua bravata os metera a todos.

– Que vos parece este perro? – remorde Pereira, a modo de donaire e torcendo os focinhos, como é próprio dos portugueses, incapazes de tolerarem a boa fortuna dos seus vizinhos. – Meteu-nos numa camisa-de-onze-varas e anda como se trouxesse o rei na barriga!

– Vamos ser todos esquartejados, se estes bárbaros não tomarem o castelo – concorda Gaspar.

– E se por milagre o tomarmos, como ele imaginou – acude Melo, com a mesma má natureza, falando mais forte a sua inveja de Mendes do que a sua inimizade por Pereira –, há-de ganhar tamanha valia com os tártaros, que nos haveremos de dar por muito honrados de o servirmos toda a nossa vida.

Nunca o invejoso medrou, nem quem com ele se juntou, pensa Fernão, ao ouvi-los, embora se sinta a morrer de ansiedade, vendo agigantar-se ante os olhos as muralhas do castelo, com milhares de defensores nas torres e ameias engalanadas com os compridos estandartes ou guiões de seda à charachina. Irrita-o a ingratidão dos murmuradores contra Mendes, esquecidos de que fora graças ao seu engenho que estavam livres dos grilhões, eram recebidos com muita honra na tenda do Mitaquer, com quem comiam à tripa forra, tirando a barriga de misérias. Morra Marta morra farta! Se tiver de morrer, sempre é melhor ir de pança cheia e bem trajado, do que faminto e em andrajos.

Não fosse a invejice toldar-lhes os espíritos, os portugueses não poderiam fazer outra coisa senão admirar Jorge que, dois dias antes, tal como prometera ao general, fora com Valentim e Vicente – os mais experientes dos nove nas artes da guerra – e trinta cavaleiros tártaros, dar a volta à fortaleza, à procura dos seus pontos fracos, regressando ao arraial um tanto aliviado com o que vira.

Auxiliado pelos dois companheiros, traçara um plano de ataque que agradara muito ao Mitaquer, o qual logo ali lhe entregara um formão assinado em letras de ouro, onde declarava que daria aos nove folangji liberdade para volverem à sua terra, semelhantes aos seus filhos em honras e rendas de muita prata.

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