– Os chins são infantes e nós somos cavaleiros. Que pode fazer uma manada de potros, de vitelas contra tigres ou uma alcateia de lobos?

Apesar das baixas sofridas no assalto, o exército parecia ter dobrado de tamanho, acrescido dos milhares de cativos – homens, mulheres e crianças que seguiam como um rebanho os seus senhores –, dos muitos cavalos e gado tomados no saque; carroças carregadas de cereais, panos e porcelanas fechavam o cortejo.

Atrás deles, colunas de fumo negro erguiam-se no ar, como estandartes de luto por uma cidade abrasada, onde nenhuma casa, edifício ou templo sumptuoso permanecia de pé e os corpos dos vencidos apodreciam por toda a parte, insepultos.

144 A partir da tradução de Sérgio Capparelli. Du Fu (712-770) foi um poeta chinês da dinastia Tang.

XXIV

Jamais desesperes nas mais sombrias aflições da tua vida, pois das nuvens mais negras cai uma água limpa e fecundante

(chinês)

As lutas do ano passado

Os bárbaros não semeiam os campos,

o massacre é para eles

o que o plantio é para nós.

Desde os tempos mais recuados

há ossos brancos empilhados

na areia amarela.

Lá, onde os Qin construíram a Grande Muralha

contra os invasores

os filhos dos Han acendem tochas,

que servem de aviso.

Até hoje, nunca acabaram as pelejas.

No campo de batalha os homens cruzam o ferro

num corpo a corpo, sem clemência.

Os cavalos relincham suplicando ao céu

os corvos e os abutres de bicos resistentes

laceram as entranhas humanas

depois voam e deixam-nas penduradas

em árvores secas.

O sangue dos combatentes escurece na relva

e contra isso os generais nada podem fazer.

Lembrem-se, então, que as armas

são os instrumentos do mal

e deveriam ser apenas

o último recurso do homem sábio145.

(Li Bai)

Os tártaros montaram o arraial e fizeram trincheiras à volta do castelo de Nixiamcoo, a dois dias de caminho de Quansy, porque o nauticor de Lançame tinha contas a ajustar com os seus moradores, que na ida lhe haviam armado uma cilada, matando-lhe uma centena de homens146. No entanto, apesar da superioridade numérica do seu exército, da qualidade e experiência dos seus guerreiros e das centenas de escadas que mandara fazer para o assalto, o nauticor não tinha sido bem sucedido, pois em apenas duas horas de combate perdera mais gente do que na investida a Quansy; raivando de humilhação, fora forçado a ordenar a retirada, para cuidar dos feridos e enterrar os mortos.

Por todo o campo correram murmurações de que aquela empresa, de tão pouco proveito com tão alto custo em vidas, era fruto de um capricho do nauticor e não do serviço de Altan Khan, o seu rei. Os capitães, preocupados com os sons de revolta, não quiseram arcar sozinhos com os custos de acometer de novo o castelo e pediram ao nauticor que submetesse a decisão a conselho geral, como determinava o regimento que lhe dera o khan.

O general convocou logo os nobres e oficiais ao campo das tendas onde, sem desmontar do seu cavalo, lhes apresentou as razões para o combate. Os pareceres a favor ou contra foram tantos e tão variados, que a noite chegou sem que se pusessem de acordo, sendo marcada nova reunião para o dia seguinte.

O capitão Tileymay, que tinha a custódia dos folangji, viera sentar-se com três outros oficiais, junto da fogueira que ardia diante da sua tenda, a beber e a praticar sobre o que se passara no conselho. À distância de alguns passos, estava o cercado dos cativos estrangeiros, de modo que se podiam ver e ouvir uns aos outros sem dificuldade. Como as distracções eram poucas, a ansiedade muita e a fome ainda maior, os portugueses espiavam os quatro tártaros, como se estivessem a assistir a um entremez num pátio de comédias.

O capitão mandara vir um odre de kimiz, deitara um pouco numa escudela e lançara-o para o alto, como se o oferecesse aos céus, em seguida, repetira o gesto nas quatro direcções – oriente, ocidente, norte e sul –, depois bebera um trago e só então oferecera a bebida aos seus convidados.

– Deve ser para lhes certificar que o vinho não tem peçonha – observa Zeimoto.

– Quem me dera um trago – geme Jorge. – Estou seco que nem palha de enxerga.

– Beber leite azedo de burra? – reponta Pereira, com uma careta de asco. – Só se estivesse pra morrer de sede.

– O que te há-de acontecer – corta Vicente –, se esse cabrão vermelho continuar por muito mais tempo sem nos dar de beber ou de comer!

Cristóvão e Fernão não falam, alheados do que os rodeia, com os sentidos postos no lugar de onde vêm sons de festa, misturados com prantos e gritos de mulheres. Os vencedores divertem-se com as cativas, muitas delas moças virgens, filhas de gente nobre, que eles têm prazer em torturar e humilhar. Os dois amigos vivem num tormento, ora acalentando a esperança da salvação de Meng e Lijie, ora imaginando-as mortas ou, pior ainda, a sofrerem as sevícias dos bárbaros, nas orgias que têm lugar todas as noites no arraial.

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