Nesse mesmo dia, o general fizera Jorge seu mestre do campo, por quem tudo e todos se governariam, incumbindo-o de traçar a ordem em que os capitães haveriam de acometer o castelo. O bargante distribuíra postos de comando pelo bando, encarregando-os do corte da faxina para entulhar os fossos, da recolha de cestos, enxadas e pás pelas casas das povoações abandonadas, da construção de trezentas escadas muito fortes e assaz largas para poderem subir por elas três homens ao mesmo tempo. O enfunado governara tão bem o campo que tudo ficara pronto para, na manhã seguinte, se fazer o assalto à fortaleza.
Aproveitando a liberdade, embora vigiada, de que gozavam com a nova situação, sempre que o trabalho o permitira, Fernão e Cristóvão tinham percorrido o campo, visitando todos os lugares onde os tártaros mantinham os prisioneiros, sobretudo as tendas e cercas com as mulheres, sem acharem rasto de Meng e Lijie. De início tinham feito perguntas às cativas, mas as infelizes encolhiam-se a um canto, mudas de terror ou a gemer, como bichos maltratados, outras nem se moviam do lugar onde jaziam, olhando-os com os olhos vazios, como mortas.
Fernão deixa de ouvir as vozes dos invejosos, abafadas pela matinada ensurdecedora dos atabales e outros instrumentos de guerra dando sinal para a investida. – Cada um é artífice da sua ventura, murmura entredentes e concentra-se na difícil tarefa de furtar o corpo à morte, com manhas em que tinha já algum traquejo pelos muitos combates com que a sua má ventura o galardoara.
O exército fora repartido em doze batalhões, por cinco fileiras muito compridas e, na vanguarda, uma contrafileira disposta em meia-lua que cingia todo o campo. Os oito portugueses estão todos juntos na ala comandada pelo companheiro promovido a mestre de campo dos bárbaros invasores.
Cerca de trinta anos mais tarde, Fernão descreveria, com os olhos da memória e em letra impressa, o assalto ao castelo e a espantosa proeza de Jorge que lhes dera a liberdade e de cujo texto a presente narradora transcreve algumas linhas, em proveito do leitor, pois muito melhor do que ela, que só pode narrar imaginando, o fez ele, embora recordando, por o ter vivido:
A primeira salva, que se deram os de fora e os de dentro, foi de muitas frechadas, e de muitos arremessos de zargunchos, e de pedras, e de panelas de cal em pó, e algumas de fogo, em que se gastou quase meia hora, e após esta salva, logo os tártaros sangraram a cava por seis ou sete partes, e entulhando-a com muita presteza com faxina e terra, foram logo as escadas todas juntamente encostadas ao muro, que já ficava muito baixo por causa do entulho. O Jorge Mendes foi o primeiro que subiu pelas escadas, acompanhado de dous dos nossos, que como amoucos iam determinados de morrerem ou fazerem cousa com que se sinalassem, e prouve a Nosso Senhor que lhe sucedeu bem, assi por serem eles os que fizeram esta primeira entrada, como por arvorarem o primeiro guião, de que o Mitaquer com todos os mais que estavam com ele ficaram tão espantados que diziam uns para os outros: se o rei desta gente cercara o Pequim como nós o cercámos, o chim perdera mais depressa a sua honra do que lha nós fizemos perder148.
145 A partir da tradução de Sérgio Capparelli. Li Bai (701-762) foi um dos maiores poetas chineses da dinastia Tang.
146 Peregrinação, capítulo CXVIII.
147 Peregrinação, capítulo CXXII.
148 Peregrinação, capítulo CXIX.
LIVRO V
MAR DO JAPÃO
CIPANGO
No ano de 542, achando-se Diogo de Freitas no reino de Sião, na cidade de Odiá, capitão de um navio, lhe fugiram três portugueses num junco que ia para a China: chamavam-se António da Mota, Francisco Zeimoto e António Peixoto. Indo-se de caminho para tomar porto na cidade de Liampó, que está em trinta e tantos graus de altura, lhes deu tal tormenta à popa que os apartou da terra, e em poucos dias, ao levante, viram uma ilha em trinta e dous graus, a que chamam os Japões, que parecem ser Cipangas e suas riquezas, de que tanto falam as Escrituras; estas também têm ouro e muita prata e outras riquezas.
(Tratado dos Descobrimentos, de António Galvão, 1550)
I
Ao entrar na vila, obedeça aos que nela moram
(japonês)
Da ilha de Zipangu (Cipangu):
Zipangu é uma ilha do levante que está no alto mar a mil e quinhentas milhas. A ilha é muito grande. A gente é alva, de boas maneiras e belas. São idólatras e não estão sujeitos à senhoria de ninguém senão a si próprios. Encontra-se aqui ouro, mas não muito; ninguém aí vai e nenhum mercador leva deste ouro, razão pela qual têm tanto.
O palácio do senhor da ilha é muito grande e coberto de ouro, como entre nós se cobrem de chumbo as igrejas. E todo o espaço das câmaras é coberto de ouro da grossura de bem dois dedos e todas as janelas e paredes e tudo o mais e também as salas: não se podendo dizer o seu valor.
Têm muitas pérolas, as quais são vermelhas, redondas e grandes, mais caras do que as brancas. Também há muitas pedras preciosas, não sendo possível contar a riqueza desta ilha.