– Por que meio nos poderemos salvar? – pergunta Vicente, o único que mantém o semblante sereno, a voz sossegada.

Calvo olha-os, a todos, como surpreendido de ainda os ver ali, respondendo muito agastado:

– O meio que eu agora, meus irmãos, achava mais certo de nossa salvação, era acharmo-nos entre Lavra e Coruche, ao pé de uma moita, onde me eu já vi muitas vezes. Mas já que não pode isto ser, encomendemo-nos a Deus Nosso Senhor para que nos valha.

Fernão percebe que aquele homem corajoso, veterano de tantas batalhas, só lhes fala assim por estar aterrorizado, não por si, mas pelo que poderá suceder à mulher e aos filhos.

– Temos de sair da cidade, quanto antes, por uma das portas opostas ao arraial dos tártaros – diz-lhe, tentando arrancá-lo ao desespero, embora também ele sinta arrepios de medo por todo o corpo.

– Ajudaremos a carrear o vosso fato – oferece Vicente e os companheiros acenam em concordância –, levaremos o que quiserdes, pois tudo o que temos é o que trazemos no corpo.

Calvo grita-lhes, fora de si:

– Estais porventura cegos, para não verdes o que se está a passar? Há menos de uma hora oferecia eu mil taéis de prata a quem me pusesse em salvo, com a minha mulher e filhos, mas não houve remédio por já todas as portas da cidade estarem fechadas e muito bem guardadas. Isto agora é cada um por si, o salve-se quem puder. Tratai de buscar refúgio onde puderdes, que eu farei o mesmo junto dos parentes da minha esposa. Permita Deus que nos volvamos a encontrar e, se for de Sua vontade, talvez possamos retomar as nossas vidas no ponto em que as deixámos.

Fernão e Cristóvão têm apenas um breve instante para se despedirem das duas moças, cujo choro lhes corta o coração. Na rua, vendo o desatino da multidão, param sem saber para onde ir.

– Que faremos? – é a pergunta em todas as bocas. – Para onde iremos?

– Creio que nos devíamos refugiar no cárcere da muralha. – sugere Fernão, cujo instinto de sobrevivência se sobrepõe a todos os outros sentimentos em situações de perigo.

– No tronco? Ensandeceste?

– Por que razão queres ficar preso?

– Pacientai um pouco e ouvi-me. Na minha primeira viagem ao mar Roxo, fui feito prisioneiro dos turcos, posto a leilão com mais seis companheiros na praça da cidade de Mocaa. Quis Deus que naquele momento estalasse uma disputa entre os soldados e os clérigos pelos direitos da nossa venda, a qual descambou em sangrenta batalha. Quando os vimos a matarem-se uns aos outros pela cidade, nós os sete, que déramos causa à contenda, tomámos por remédio mais certo da nossa salvação tornarmo-nos a meter na masmorra, sem que nenhum ministro da justiça nos levasse. Assim salvámos a vida, porque houve mais de seiscentos mortos de ambos os lados, depois de pilhada meia cidade.

– Não foi mal pensado, não senhor! – exclama Vicente, rompendo o silêncio pasmado dos companheiros. – Se os tártaros invadirem Quansy, será para a saquearem e vão passar toda a gente a fio de espada para depois incendiarem a cidade. No tronco devem estar, como sempre acontece, alguns prisioneiros da sua nação, à espera de serem levados para outras províncias, os compatriotas hão-de ir lá libertá-los. Ora, sendo nós estrangeiros condenados pelos chins, não nos farão dano.

– Se, por outro lado, forem os chins os vencedores – acrescenta Zeimoto – nada de mal nos sucederá, por já não termos a obrigação do cárcere. Poderemos dizer que viemos ajudar na defesa.

– Se não tendes outra ideia melhor, sigamos quanto antes para a prisão, que já se ouvem as bombardas na muralha.

Os tártaros não vinham fazer uma razia num povoado fronteiriço, vinham preparados para conquistar uma cidade muito maior que Quansy, talvez mesmo a própria Pequim, para levarem aquilo que não tinham podido obter por honesto trato: arroz, cereais e panos. Agora, à escala franca, tomariam o que lhes apetecesse ou pudessem transportar nas selas dos seus cavalos sem os atrapalhar em combate, como jóias, ouro e prata.

Eram medonhos de aspecto, cabelos avermelhados, sem barba, tirante alguns pêlos no lábio e no queixo, tão raros que se poderiam contar, de olhos estreitos e vivos, a voz áspera e aguda; o som dos seus passos e o tilintar das setas nas aljavas faziam estarrecer as suas vítimas, que nem tentavam defender-se. Cada guerreiro trazia até dezoito cavalos para ter sempre montada folgada, pronta para as correrias e refregas, mas o seu fato era leve, composto por dois odres de kimiz, o leite de jumenta que preparavam como vinho, umas tiras de carne seca e um pote para cozer a carne. Insensíveis ao cansaço, ao frio ou à fome, podiam passar dois dias e duas noites a cavalo, sem porem o pé em terra, alimentando-se apenas de kimiz ou, na falta dele, sangravam um cavalo, picando-lhe uma veia para lhe beberem o sangue.

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