Ao tomarem conhecimento do caso, os capitães dos dois juncos recusaram-se a recebê-los a bordo e fizeram-se à vela, abandonando-os nos matos, onde viveram durante vinte e seis dias como bichos, passando grandes perigos e miséria, mas sem nunca fazerem as pazes ou prestarem socorro uns aos outros. Só Fernão, Borralho e Zeimoto continuaram unidos, mantendo-se apartados dos restantes.

A salvação chegara-lhes pela mão do corsário chim mais procurado pela armada do aytao de Chincheu, que o perseguira e desbaratara, apresando-lhe vinte e seis velas da sua frota. Wang Zhi lograra fugir apenas com dois juncos, refugiando-se em Lampacau, para restaurar as forças e curar os feridos. Com ele vinha o português António da Mota, conhecido de Zeimoto, que lhes propôs engajarem-se com o corsário, por lhe faltar gente para equipar os dois juncos.

Entre morrer nos matos ou lançar-se no corso e ganhar alguns proventos no saque das presas, enquanto não achassem barco que os levasse a Malaca, não havia que hesitar. Fazendo das tripas coração, engolindo o orgulho, vieram à fala uns com os outros, a fim de assentarem partido com o capitão para que os tomasse como matalotes e soldados de fortuna. Sarados os feridos, deixaram Lampacau vinte dias mais tarde, embarcando os três amigos com o capitão e os restantes companheiros com o sobrinho, posto que entre eles não houvera reconciliação.

A captura de boas presas rendera-lhes um proveitoso espólio, até ao momento em que, rumando Noroeste-Sueste, abaixo do porto de Chaozhou150, na foz do rio do Sal, se dera o mau encontro com os sete navios bem armados do wokou ladrão, que os levara de vencida.

Depois de navegarem três dias sem descanso, para se porem fora do alcance da sua frota, quando já se viam em segurança à vista de terra, colheu-os um vento esgarrão que fazia tais terramotos no mar como se todos os espíritos infernais andassem a revolver as ondas. Nessa mesma noite perderam a costa de vista, cuidando perder também as vidas, acabando por arribar sãos e salvos ao arquipélago de Ryūkyū ou Léquias, um reino independente de mais de cinquenta e cinco ilhas, onde se fazia boa veniaga. Sendo Zhi muito conhecido ali, bem recebido pelo rei, aproveitara a estadia para vender a fazenda, reparar os juncos e dar descanso aos homens.

Nas vésperas da sua partida, os léquios viram aparecer um prodígio no céu, uma formação grossa de diversas cores, tão melancólicas que enchiam as almas de temor; as nuvens, de tão rasteiras, pareciam pousar sobre as cabeças das pessoas, as aves, obedecendo à voz do instinto, levavam os ninhos de cima das árvores para os esconderijos das lapas.

Zhi que desejava percorrer as costas do arquipélago, partira sem querer saber dos avisos dos matalotes mais velhos, nem quando lhe apontaram o olho-de-boi, o sinal do tufão, aconselhando-o a buscar porto de abrigo sem demora. O mar, apesar de estranho, estava sossegado, no entanto, ao contrário do arco celeste que indica bonança, o olho-de-boi é sinal seguro da ira de Deus, a qual não tardara a tombar sobre o junco indefeso e os seus cem ocupantes.

Durara-lhes vinte e quatro horas a luta para se manterem à tona, de madrugada, os ventos ponteiros e as correntes contrárias tinham-nos arrastado, assim perdidos, até ao ponto onde agora se encontravam.

Fernão desperta da sonolência com o grito do avistamento de terra, saudado por grandes brados de alegria, criando novo ânimo na chusma extenuada que faz arribar o junco à costa em busca de uma angra para surgir.

– Olhai, a sul, aquele clarão ao horizonte do mar – brada Zhi.

– É um luzeiro de fogo.

– A ilha é povoada, Deus seja louvado!

– Veremos se é gente de bom trato, porque precisamos de água – diz o capitão. – Pode ser que a povoação tenha um bom surgidouro.

Acham-no a setenta braças da costa e, enquanto procedem às tarefas de amainar velas e lançar ferro, acercam-se duas almadias com seis homens. Muito bem apessoados, corpos fortes, boas feições. Assemelham-se aos chins, embora mais alvos, de olhos pequenos e poucas barbas. Pedem por gestos para subir a bordo e o capitão recebe-os com grande cortesia.

Trocam entre si salvas e zumbaias à charachina, mas os gentios não falam a língua chim e Zhi tão pouco conhece a deles, nem há no junco quem a saiba. Por gestos, os visitantes perguntam-lhe donde vêm e o capitão consegue dizer-lhes que são mercadores, mostrando-lhes algumas sedas e couros que trazem para veniaga.

– Nishimura Koura151, Tanegashima152 – responde Tsurumi, o chefe do grupo, ao gesto interrogativo do capitão que aponta para o cais da povoação. Faz um gesto circular, mais largo, acrescentando: – Nipongi.

Os três portugueses seguem o diálogo de surdos, tentando perceber se os sons e as palavras se assemelham aos da língua chim; os visitantes miram-nos estupefactos, como se estivessem diante de uma aberração da natureza, murmurando Seiban, seiban153.

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