– Tanixumaa? – repete Pinto, olhando para Cristóvão Borralho e Francisco Zeimoto, a pedir confirmação, mas ambos encolhem os ombros. – Se Tanixumaa é a ilha, Nipongi há-de ser esse tal arcipélago do Japão, de onde vai a prata para Malaca.
Tsurumi fala de novo, procurando dizer não só ao capitão da Grande Ming como àqueles estranhos tenjikujins154 que Tokitaka é o senhor de Tanegashima e eles serão muito bem-vindos para fazerem os seus tratos, se lhe pagarem os direitos devidos
– Chama-se Naotoki, o senhor da ilha? – pergunta Cristóvão, que pouco percebeu do arrazoado, e acrescenta numa súbita inspiração: – Serão estes os japões de que nos falaram os léquios?
Zeimoto solta um assobio de assombro:
– Nipongi é o Cipango de Colombo? No seu globo do mundo, Martinho da Boémia155 dizia que na ilha de Cipango cresce oiro em abundância, toda a sorte de pedraria e pérolas orientais. Será verdade? Os antigos enganaram-se em tantas cousas, como bem temos visto nas nossas viagens.
– Marco Polo disse que Zipangu é uma única ilha – lembrou Fernão –, com tanto ouro que os paços d’el-rei estão cobertos por ele, os seus ídolos têm cabeças de bicho e os seus naturais comem carne humana. – Sente um calafrio, ao lembrar-se da sua aterradora experiência no reino dos Batas. – Parece-me que o veneziano se enganou ou mentiu de propósito sobre muitos lugares que eu já visitei e ele nem sequer deve ter visto de passagem, porque só diz inzonas e invenções. Esta gente parece ser de tanta polícia como os chins, não acredito que sejam comedores de homens.
Recorrendo sempre à linguagem dos sinais, Tsurumi indica-lhes uma calheta abrigada onde poderão surgir, indo as almadias juntamente com o batel, pela proa, para conduzirem o junco a bom porto. Assim guiados, não têm dificuldade em aferrar bem perto de terra, de onde vêm logo muitas almadias a vender alimentos e outros produtos.
– Capitão, deixai-nos ir convosco a terra – roga Fernão, vendo que Zhi se prepara para desembarcar.
– Não podeis ir todos ao mesmo tempo, pois aqui nunca veio ninguém como vós e esta gente não gosta de estrangeiros, mesmo sendo semelhantes na figura, como eu. Vem tu com o Mota, que já me acompanha há mais tempo e pode dizer-te como te deves comportar.
– Vê tudo bem visto, para nos contares como foi lá – lança-lhe Borralho, junto de Zeimoto, à despedida, com risonha inveja.
149 Langbaigang ou Langbaijiao.
150 Na Peregrinação, capítulo CXXXII, é nomeado por Chabaqué; que também poderá ser o porto de Chenghai (China).
151 Cabo Kadokura.
152 Fernão Mendes Pinto chama-lhe Tanixumaa. Actual ilha Tanegashima, de 445 km2, situada a 30º 30’ N. e 131º 0’ E., estende-se por cerca de 35 quilómetros, através do estreito de Ōsumi, a sul de Kyushu.
153 Bárbaros do Ocidente.
154 Estrangeiros, gente da Índia, transformado em chenchicogis, na Peregrinação.
155 Martin Behaim, autor do celebrado globo de Nuremberg, construído no mesmo ano em que Colombo fazia a sua viagem de descobrimento.
II
Pouco se aprende com a vitória, mas muito com a derrota
(japonês)
Teppoki156 ou Relação do Mosquete, de Nanpo Bunshi:
Ao sul de Gushu157, a dezoito ri158 da costa há uma ilha chamada Tanega. Ali têm vivido, há muitas gerações, os meus antepassados. Segundo uma lenda de tempos antigos, o nome de Tanega, Ilha da Semente, derivou do facto de o número de habitantes, apesar da pequenez da ilha, ter crescido e prosperado como sementes que, uma vez plantadas, crescem e produzem inúmeras novas sementes
Há alguns anos, na era Tenbun [1532-1554], no vigésimo quinto dia do oitavo mês, no Outono do ano da Lebre (aos vinte e três dias de Setembro de mil quinhentos e quarenta e três), um grande navio chegou à hora do galo [entre as seis e as oito da tarde] à baía de Nishimura. Ninguém sabia de que nação vinha. Havia cerca de cem pessoas a bordo, cujos traços físicos diferiam dos nossos e cuja língua não se compreendia. Quem os viu achou-os muito estranhos. Entre eles estava um letrado da Grande Ming. O seu nome próprio era Gohō159. Ignoramos o seu nome de família. Era então chefe do lugar de Nishimura um homem chamado Oribenojō, bom conhecedor da sua escrita.
Na praia espera-os o samurai Oribenojō Tokitsura, chefe do lugar de Nishinomura, sujeito aos senhores de Tanegashima. Saúda Wang Zhi com muita cortesia, dando-lhe o nome de Goho, sem conseguir desfitar os rostos dos dois portugueses ou disfarçar o pasmo que lhe causam as suas barbas hirsutas, os grandes narizes e os olhos esbugalhados. Uma multidão de curiosos acotovela-se e empurra-se para os ver, com igual assombro, embora mantendo a distância imposta pelo acatamento devido ao chefe da povoação, rodeado dos parentes e da gente do seu ofício.