São os portugueses que ali o trazem, curioso da novidade, pois o seu olhar colhe os cem ocupantes num rápido relance, indo pousar demoradamente em Pinto, Borralho e Zeimoto, vestidos com as roupas ocidentais nunca antes vistas naquelas paragens. Muito moço, de uns quinze anos de idade, o daimyō tem um rosto afável, olhos vivos e inteligentes que captam todas as particularidades do junco, como mostra com as suas perguntas e comentários a Zhi, enquanto o percorre da popa à proa.

Senta-se, com divertida estranheza, numa cadeira que o capitão lhe preparou na tolda e acena a Tadashi Shuza, um bonzo da seita Nichiren muito versado em textos chins, que vem postar-se atrás dele para lhe fazer a dupla interpretação nos assuntos mais elevados. É, todavia, a léquia O-tama quem traduz a primeira pergunta sobre os nanbanjins, dirigida ao capitão corsário:

– Necodá, vemos na diferença do rosto, barbas e trajos que estes homens não são chins. Onde os achaste? A que título os trazes a esta nossa terra?

– São mercadores, nobre senhor. Uma gente boa. sem nenhuma falta, que achei perdida em Lampacau e recolhi por esmola. Habitam uma terra chamada Malaca, há muitos anos sujeita ao rei de Pu-Li-Du-Jia165, um reino no cabo do mundo onde o sol se põe.

Tokitaka faz um gesto de espanto, dizendo para os do seu séquito:

– Que me matem, se não são estes os tenjikujins referidos nos nossos livros sagrados! Os que vêm voando por cima das águas, para fazerem tratos com os habitantes das terras onde se criam as riquezas do mundo. A profecia consumou-se pois eles visitam a nossa ilha em título de boa amizade.

– Somos chenchicogins? – pergunta Fernão por entre dentes. – Que cousa são, os chenchicogins?

– O língua referiu gente da Índia, estrangeiros.

O daimyō chama-os para mais perto dele e António da Mota junta-se-lhes. Vendo que os nanbanjins falam a língua chim, Tokitaka prossegue com a dupla interpretação:

– Como vos chamais?

Dizem os nomes e o bonzo, muito seguro do seu saber, traslada Francisco Zeimoto em Furanchisuku Chimoro, Cristóvão Borralho em Kirishita Bōryōshukusha, designando António da Mota apenas por Da-Mōta e Fernão Mendes por Murashukusha. Tratando-os por estes nomes, com grande afabilidade, o daimyō faz-lhes muitas perguntas sobre as suas vidas, mostrando ser um governante curioso e inclinado a coisas novas, apesar da sua juventude. Respondem-lhe o melhor que podem, de modo a comprazê-lo, avaliando o gosto que o moço tem naquela prática pelo tempo que gasta com eles. O sol declinava quando Tokitaka dá a conversa por terminada, fazendo-lhes um convite que o língua dirige a Zhi:

– O templo budista de Jionji pertence aos monges de Nichiren Hokku, a principal religião de Akōgi. É assaz grande para alojar os cem membros do teu nanbansen, enquanto estiverem a repará-lo. Podeis ir para lá quando quiserdes.

O daimyō interrompe os agradecimentos efusivos do capitão, para se despedir dos portugueses:

– Furanchisuku, Murashukusha e Kirishita, amanhã ide ver-me a minha casa. Levai-me um grande presente de novas desse grande mundo por onde andastes, das terras que tendes visto, porque vos afirmo que essa só mercadoria comprarei mais a meu gosto que todas as outras.

A pedido de Zhi, Tokitaka ordena a Tadashi Shuza que durma essa noite no junco, a fim de responder às perguntas dos tenjikujins e de os acompanhar na manhã seguinte a sua casa. Fazem-lhe muitas zumbaias, até ele embarcar na sua funce e partir. Mal o barco se afasta, os portugueses levam o bonzo para um coberto, onde o crivam de perguntas sobre o arquipélago e as suas gentes.

– A nossa nação é composta de muitas ilhas, algumas separadas apenas por pequenos golfos ou braços de mar. A principal é Nipongi, Princípio do Sol, porque é a mais oriental, a primeira onde nasce o sol e jaz a cidade de Meaco com a corte e residência do imperador. Esta ilha tem a figura de um leão, de rosto para o nascente, o flanco virado para a terra da China, na província de Mangi, da qual dista cerca de quarenta léguas. O seu cabo é da feição de uma cauda de raposa sobre as grandes ilhas de Ximo e Xicoco. Nipongi está dividida em cinquenta e seis governanças, Ximo tem dez governanças, divididas por quatro senhores, os Iacatas, sendo o de Bungo o mais poderoso. O senhor de Tanegashima governa sobre doze ilhas.

– Sois um povo mui parecido ao do Grande Ming – diz-lhe Fernão, usando o nome que os seus naturais dão à China, crendo tecer-lhe um elogio. – Foram eles os primeiros povoadores destas ilhas?

Shuza franze o sobrolho, contudo domina de imediato a sua irritação, respondendo com voz sossegada embora um pouco tensa:

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