Fernão está tão maravilhado como eles, por se achar em terra virgem, entendendo pelas suas manifestações que nunca tinham visto um europeu. Ele é o primeiro ocidental a pisar o solo dos japões e só não se ajoelha em terra para beijar o solo, porque está a ser observado, escrutinado por centenas de olhos e não quer dar um passo em falso ou fazer um gesto errado que dane aquele negócio. Tanto os homens como as mulheres vestem quimões e catabiras, uma espécie de vestidos pintados, largos, com as mangas caídas, que erguem por detrás para não os sujarem no pó ou na lama, o que por vezes lhes deixa o norte a descoberto. As mulheres não usam toucado, trazem os cabelos untados com óleos, para ficarem mais pretos, atados atrás ou enrolados no meio da cabeça com um fio de papel; rapam as sobrancelhas e as testas, cobrem os rostos de alvaiade, por ser a alvura da pele sinal de beleza, mas tingem os dentes de preto.

Terminadas as zumbaias de parte a parte, o samurai – que não fala chim, embora, tal como Zhi, saiba escrever os seus caracteres – desenha com uma cana na areia a frase Não sabemos de que nação é esta gente que trazes a bordo; deixa que o capitão a leia, apaga-a e volta a escrever: Parecem muito estranhos, não parecem?.

Entrega a cana a Zhi que traça no solo: São mercadores dos povos bárbaros do Sudoeste. Compreendem até um certo ponto a distinção entre o senhor e o servidor, mas não creio que tenham conhecimento da Via das Cinco Relações Humanas160 ou de qualquer sistema próprio de um cerimonial cortês. Como assim?, desenha Oribenoj-o, e o corsário rabisca: Quando bebem, não usam taças, comem com os dedos, não com paus, como nós. Mostram as emoções sem qualquer domínio e desconhecem a nossa escrita.

– Ah! – exclama o samurai, mirando as roupas dos dois estrangeiros, em particular os estranhos objectos de madeira com ferro, em forma de tubo comprido, que um traz ao ombro e o outro debaixo do braço. Escreve: Então esses nanbanjins comportam-se como bichos?.

Zhi abana a cabeça com complacência e desenha a frase: São mercadores, acostumados a deambular de lugar para lugar, trocando cousas que têm por aquilo que não têm. Não são assim tão estranhos, em geral, são bastante inofensivos.

Oribenojō sorri, aliviado, como se lhe tirassem um grande peso dos ombros e o corsário debuxa na areia: O nosso barco foi muito maltratado pelo tufão, precisamos de o consertar. O samurai acena em concordância e escreve: Estas águas são pouco fundas, não servem para acolher um grande navio. A treze ri161, na ilha de Tanega, existe o porto de Akogi162, que é morada dos meus antepassados; possui milhares de casas e os habitantes são muito abastados, graças aos tratos com mercadores do norte e sul. Faríeis melhor em navegar para esse porto, onde o mar é profundo e muito tranquilo. Eu levarei aviso ao daimyo Tanegashima Tokitaka, o décimo quarto senhor destas doze ilhas, e a seu pai, Shigetoki163. Esperai pela sua resposta.

Zhi regressa ao junco com os seus homens e Oribenoj-o cavalga mais de trinta e cinco milhas até à residência dos seus senhores, em Ak-ogi, para lhes fazer em pessoa o relatório do extraordinário acontecimento da vinda do Nanseigo ou Estrela do Sul, um grande junco que o povo nomeou já por nanbansen ou navio dos bárbaros do Sul.

Os juncos não podem navegar à volta do cabo sem ajuda, nem subir pela costa ocidental da ilha de Tanegashima, sobretudo na presente estação dos tufões, por isso o senhor Tokitaka, mal recebe a notícia da sua vinda, envia trinta barcos a remos para rebocar o nanbansen até ao seu porto, onde chega dois dias mais tarde, a vinte e sete de Agosto, hora do porco, ou seja, por volta das dez da noite, no tempo em que as ilhas do arquipélago se achavam em estado de guerra, sob o governo do imperador Konara e do shogun Josiharu.

Ainda a ampulheta não esgotara a areia da segunda hora, após a ancoragem na calheta para onde os rebocadores os haviam conduzido, já uma multidão, muito maior do que a de Nishimura Koura, acorrera ao porto. Encostado à bordadura do junco, Fernão segue com grande interesse o movimento e emoção das gentes da terra, que num súbito alvoroço abrem alas, lançando-se de rojo no chão, criando um largo corredor para dar passagem ao jovem daimyō Tokitaka e ao seu numeroso séquito, que se dirigem à praia onde os espera uma formosa funce164 muito embandeirada para os levar ao nanbansen.

Com toda a sua equipagem bem ordenada para lhe prestar homenagem, Wang Zhi acode a recebê-lo, tendo a seu lado O-tama, uma mulher das ilhas de Ryūkyū que lhe serve de tçuzzu ou intérprete para a língua chim e, a curta distância, os portugueses que dissimulam sob a roupa os mosquetes carregados. O capitão e Tokitaka trocam intermináveis cortesias, até o daimyō se certificar de que é seguro subir a bordo, o que logo faz, acompanhado por alguns parentes, gente nobre e mercadores que trazem baús e cofres cheios de prata para fazerem tratos.

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