163 Tanegashima Shigetoki (1503-1567) era avô de Hisatoki – o autor do Teppōki – foi o décimo terceiro senhor de Tanegashima que, vencido na guerra, abdicou do senhorio das ilhas em favor do filho Tokitaka (1528-79), de quinze anos, pouco antes da chegada do junco com os portugueses.
164 Pequena embarcação japonesa a remos.
165 Pulidujia foi o nome dado pelos chineses a Portugal, nos primeiros documentos sobre a chegada dos portugueses.
166 Comunicar, no sentido de ter conversação com, significa ter relações sexuais.
167 Cerca das nove horas da noite.
III
O homem comum fala, o sábio escuta, o tolo discute
(japonês)
Carta do P.e Francisco Xavier aos seus companheiros residentes em Goa:
Parece-me que, entre gente infiel, não se encontrará outra que ganhe aos japões. É gente de muito bom trato e, geralmente, boa e não maliciosa. Gente de honra muito de maravilhar: estimam mais a honra que nenhuma outra coisa. É gente pobre, em geral, e a pobreza, entre fidalgos e os que não o são, não a têm por afronta.
É gente de muitas cortesias uns com os outros. Apreciam muito as armas e confiam muito nelas: sempre trazem espadas e punhais; e isto todas as gentes, assim fidalgos como gente baixa; com idade de catorze anos, já trazem espada e punhal.
É gente que não sofre injúrias nenhumas, nem palavras ditas com desprezo. A gente que não é fidalga tem muito acatamento aos fidalgos. E todos os fidalgos se preciam muito de servir ao senhor da terra e são muito sujeitos a ele: isto me parece que fazem, por lhes parecer que, fazendo o contrário, perdem da sua honra; mais que pelo castigo que do senhor receberiam se fizessem o contrário. É gente sóbria no comer, ainda que no beber são algum tanto largos: bebem vinho de arroz, porque não há vinhas nestas partes.
São homens que nunca jogam, porque lhes parece que é grande desonra: pois os que jogam desejam o que não é seu, e daí podem vir a ser ladrões. Juram pouco e, quando juram, é pelo sol. Grande parte da gente sabe ler e escrever . É terra em que há poucos ladrões, e isto pela muita justiça que fazem nos que acham que o são, porque a nenhum dão vida: aborrece-os muito e de grande maneira este vício de furtar. É gente de muito boa vontade, muito conversável e desejosa de saber.
Vosso todo em Cristo, Irmão caríssimo
Francisco
Wang Zhi desembarca com amostras das mercadorias que salvara do ataque do wokou, para as apresentar ao jovem senhor, na mira de obter licença para fazer tratos com os mercadores de Tanegashima. Espera-os na praia um capitão com uma hoste de soldados, para os conduzir a casa do daimyō. A fim de o comprazer e ganhar o seu favor, o capitão leva-lhe um bom presente de peças de seda e outras curiosidades da China, em paga do batel carregado de provisões que, na véspera, ele enviou ao junco para refresco dos tripulantes, cuja vista suscitara um coro de vivas e aplausos.
Sendo costume nas partes do Oriente as embaixadas apresentarem-se com muita ostentação, para ornamento da sua primeira visita o corsário leva no seu séquito, além dos portugueses e do bonzo Tadashi Shuza, os doze chins de melhor presença ou mais autoridade do seu bando, trajados como ricos mercadores. A nova da visita dos tenjikujins espalhara-se, o porto abarrota de gente, assim como as ruas, em cujas árvores se empoleiram crianças irrequietas como pássaros; nas portas, janelas ou mesmo nos telhados apinham-se os curiosos para verem passar o luzido cortejo.
– Todas as casas são feitas de madeira, porque nas nossas ilhas os tremores de terra, tufões e furacões são muito comuns – explica-lhes o bonzo.
Fernão acha-as formosas, muito bem lavradas, com grossas telhas pretas, cozidas e envernizadas, tão rijas que duravam séculos sem se gastarem ou descorarem, segundo lhe diz o monge. São guarnecidas por fora de um estuque feito das conchas de certo marisco, para as fortalecer, dando-lhes uma brancura de neve que as faz resplandecer ao longe, tão aprazíveis à vista que os visitantes sentem o coração alegrar-se.
– Que edifício é esse, Shuza? Parece um palácio. É a casa do Senhor Tokitaka?
– Não, tenjikujin, é um mosteiro como tantos outros, das muitas religiões que existem em todas as ilhas para os bonzos e as biconis. – capta o gesto de incompreensão de Fernão e explica: – as nossas mulheres religiosas.
O mosteiro é um gracioso edifício de dois pisos, com pátios enquadrados por setenta grossas colunas de cedro muito ornamentadas, que eles entrevêem pelos grandes portais de quarenta pés de alto por vinte e cinco de largo, ladeados por duas enormes estátuas de guerreiros com suas maças nas mãos subjugando demónios.
– São como o nosso arcanjo São Miguel – compara Zeimoto.
– A grande maioria das gentes dos mosteiros pertence à nobreza, anda de cabeça e barba rapadas, para mostrar que abandonou o mundo. Os bonzos vivem em celibato, abstêm-se de carne e peixe, comendo apenas arroz, legumes ou ervas. Servem no seu templo, ensinando as crianças que estudam nos mosteiros até à idade de catorze anos.