Cruzam-se sem cessar com religiosos em vestes pretas, roxas, pardas ou amarelas que levam nas mãos fios de contas, como rosários. Durante a sua estadia, Fernão haveria de assistir algumas vezes às suas rezas e cantares em coro, com umas composições muito antigas em que respondiam uns aos outros em verso, com grande repouso e maior aparato, sobretudo à meia-noite e ao nascer do sol, quando cantavam durante uma hora, melhor do que os monges de Portugal ou Espanha às suas matinas.
Tadashi Shuza é um incansável professor, sente prazer em ensinar os tenjikujins, palavra que o escolar Wang Zhi e os próprios bárbaros pronunciam como chenchicogins e ele acaba por adoptar para melhor se fazer entender. Dos quatro estranhos visitantes, Murashukusha é o mais curioso e interessado, fazendo-lhe perguntas num arrazoado em língua do Grande Ming assaz compreensível, parecendo entender bem tudo o que se lhe diz. Resolve continuar a lição e dar aos bárbaros cabeludos algumas noções de religião.
– Ali podeis ver o templo do deus Susanoo, um dos três filhos do divino casal Izanami e Izanagi, procriadores não só da maior parte dos deuses como da natureza no mundo. É o irmão mais novo de Amaterasu, a Grande Deusa que ilumina o céu, cujo trineto foi Jimmu-tennô, o primeiro imperador do Japão. Susanoo foi expulso de Takamagahara, a Planície do Alto Céu, residência dos deuses celestes, por causa das suas selvajarias. Desceu até à província de Izumo, ao país subterrâneo dos limbos, matou a serpente gigante de oito cabeças, salvando a princesa Kushinada e, desposando-a, tornou-se rei do Nenokuni, o País das Raízes. A filha de ambos é Suseri, esposa de Ookuninushi-no-mikoto.
Fernão acaba por perder o fio à meada, emaranhado nos estranhos nomes e na pronunciação diferente daquela que se habituara a ouvir na China. A lenda era bonita, porém aqueles pagãos estão mesmo a precisar de quem lhes venha pregar a verdadeira fé, lhes salve as almas, o que até nem deverá ser muito difícil aos missionários por serem os japões uma gente afável, esperta e de muita polícia.
– O senhor de Tanegashima é ainda muito moço – diz, para mudar de assunto. – Como chegou ele ao poder, se o seu pai, o anterior daimyō ainda está vivo?
O bonzo sorri, apreciando a pergunta.
– Shigetoki foi o décimo terceiro daimyō de Tanegashima, mas sendo mais dado à caça ou aos luxos do que à governação, quis construir um grande palácio, forçando os seus vassalos a um trabalho tão constante e duro que eles se revoltaram e foram queixar-se a Izumu Tokinori, o ministro seu irmão, para que o admoestasse. Shigetoki recusou-se a ouvi-lo, acusou-o injustamente de traição. Sentindo-se ameaçado, Tokinori fez um grande levantamento de gente e, há cerca de seis meses, com a ajuda de mais de duzentos soldados, comandados pelo general Shigenaga, senhor da ilha Nejime, avançou contra o irmão. Para evitar hostilidades, Shigetoki foi refugiar-se em Yakushima, com umas dezenas de servidores, deixando a defesa do castelo entregue a Naotoki, o seu filho de quinze anos. Quando Shigenaga atacou o castelo, o príncipe defendeu-se valentemente, com a ajuda de alguns nobres e apenas cinquenta soldados, matando muitos inimigos, embora à custa de pesadas baixas. Naotoki foi ferido, mas um leal samurai salvou-o, levando-o às costas para fora da cerca. Vendo-se sem gente e sem socorro, o príncipe enviou uma mensagem ao general, dizendo-lhe que as suas hostes de defesa eram fracas, estavam exaustas, por isso ele aguardava o seu recado, no templo de Myōkuji, para cometer seppuku e morrer com honra.
– Como logrou escapar? – pergunta Fernão, sabendo como naqueles mundos dificilmente se poupava a vida aos vencidos na guerra.
– Shigenaga admirou a valentia, o alto espírito de Naotoki e mandou dizer que não lhe tinha rancor. Por que razão haveria ele de morrer? O general apenas pretendia castigar Shigetoki, que se afastara do caminho do bem e fizera sofrer o seu povo. A partir daquele momento o tirano podia viver separado do filho ou, se os maus conselheiros fossem banidos, era seu desejo que eles vivessem juntos, para que o príncipe tomasse conta do pai, de modo a impedi-lo de cometer mais crimes. Então, Naotoki tornou-se daimyō de Tanegashima, com o nome de Tokitaka e os títulos que lhe são próprios. Agora basta de prática porque chegámos ao nosso destino.
As casas são as maiores do lugar, rodeadas por um jardim ainda mais belo do que os da China, com grandes invenções de pedras, árvores e flores de diferentes espécies, mais parecendo obra de artífices do que fruto da natureza. Continuava por um parque com muitas fontes, um lago e coutadas a perder de vista.
A porta de entrada, de madeira ornamentada e pintada, dá acesso a um pequeno vestíbulo onde lhes é pedido que se descalcem e lavem os pés, o que causa alguma contrariedade aos portugueses.
– Bofé! Outra vez?! Já me lavei no junco!
– Ind’apanho um resfriado.
– ’Té parece que vimos prá procissão da padroeira de Malaca!