O diálogo prolonga-se por mais de duas horas, com os portugueses numa grande agonia de cãibras e dores nas pernas, por estarem sentados sobre os calcanhares. Por fim, Tokitaka despede o necodá e com o seu séquito e, com um anseio que ressuma na sua voz e se perde na traslação do língua, roga aos tenjikujins:

– Quedai-vos esta noite em minha casa, pois não me canso de vos perguntar cousas do mundo de onde vindes. Amanhã de manhã, mandarei dar-vos umas casas junto da minha para vossa pousada. Estareis mais a gosto aqui do que no mosteiro, por ser este o melhor lugar da cidade.

Fernão revê-se no moço príncipe, quando, com a mesma idade, embarcara pela primeira vez à aventura e para fugir à morte, movido pelo mesmo desejo de conhecer outros lugares, essa ânsia do Longe e do Mistério que o tinham trazido além da Índia, até àquele arquipélago desconhecido de quase todas as nações do mundo. O favor de Tokitaka honrava-os e avantajava-os em relação ao bando de Wang Zhi, por cujo rosto perpassa uma sombra de inveja, logo dissimulada por sorrisos corteses. Apercebendo-se do seu despeito, sente-se aliviado quando eles partem, por fortuna antes de o daimyō convidar os portugueses para comerem com ele.

É imponente o cerimonial do serviço das iguarias, acompanhadas de muita música, tanto de vozes como de instrumentos, que parece arrebatar os japões mas arranha os ouvidos dos portugueses, de tal modo que a duras penas dominam o desejo de fugir. As representações e danças causam-lhes assombro. O repasto estende-se por muitas horas, à maneira dos chins e, tal como nas ceias do monteo, a comida é servida em mesinhas baixas, uma para cada conviva, finamente lavradas com embutidos de ouro, a escusar toalha ou mantel.

Os manjares são pescado cru, caça, aves e marisco, acompanhados de legumes, de tofu ou aletria, vindo muitas das iguarias já cortadas, armadas em pirâmides de mais de um palmo de alto, borrifadas de ouro, entressachadas com uns pequenos ganchos de cipreste, tão bem concertadas que fazem os portugueses soltar exclamações de pasmo.

– Parecem ramalhetes de flores.

– Cousa maravilhosa de se ver!

– E as aves? Como se estivessem vivas.

Essas vêm inteiras, com os bicos e as patas douradas para maior primor, que os japões desfazem com os dois pauzinhos, apartando com tal perícia os ossos e também as espinhas aos peixes, sem deixar cair migalha, que maravilham os visitantes. Apesar do tempo passado na China e nos juncos com as chusmas chins, à excepção de Fernão, os portugueses manejam desajeitadamente os delicados objectos sob o olhar complacente ou divertido dos outros comensais, procurando colher e levar à boca um ou outro pedaço das viandas que lhes ficam mais perto, arrenegando da sua sorte, mas sem se atreverem a tomar a comida com as mãos. Os parentes do daimyō são ainda mais corteses e prolixos do que os chins nos cumprimentos da mesa.

– Tão só para tomarem uma taça de chá cumprem com oito leis diferentes de cortesias! – observa Zeimoto, semicerrando os olhos de impaciência.

– É uma gente de muita polícia, engenho vivo e saber natural. – murmura Borralho com um suspiro de desespero. – Não devemos escandalizá-los.

– Sem dúvida – volve Fernão, olhando disfarçadamente para a sua esteira e sorrindo de alívio ao vê-la limpa.

Tokitaka quisera recebê-los com muita honra e usara nesse recebimento o seu tesouro mais precioso, que não era ouro, rubis ou pérolas, mas louça e apetrechos antigos para o serviço do chá. Embora a bebida fosse estomacal, o andarilho português não acha merecedoras da valia que lhes dão a panela de cobre para ferver a água, a trempe de ferro onde a põem ao fogo, a caixa de guardar a erva, o pote de louça onde se deita a tisana ou as escudelas de beber. Shuza explica-lhe que aquelas peças são feitas por mestres antigos e os púcaros de barro, do tamanho dos bebedouros que, em menino, punha nas gaiolas de pintassilgo, custam ali uma verdadeira fortuna, sendo estimados como património precioso da família. Sempre de olho posto nas novidades e nos tratos, apercebe-se de que os japões desconhecem o açúcar, pois nada do que tinham comido era doce, tirando a doçura própria de alguns frutos, uma falha que os portugueses poderiam colmatar no futuro.

Findo o serão, Tokitaka manda agasalhar os tenjikujins em casa de um mercador muito rico, que os banqueteou largamente durante o tempo que pousaram com ele168.

168 Peregrinação, capítulo CXXXIII.

IV

O destino nunca favorece quem não mede as consequências

(japonês)

Tanegashima Kafu, a Crónica da Família Tanegashima:

Havia dois chefes entre os mercadores, um chamado Murashukusha e o outro Kirishita da Mōta. Tinham na sua posse um objecto de duas ou três shaku169 de comprimento. Quanto à forma, era oco por dentro, por fora direito e muito pesado. Em tudo mais cavado, tinha em baixo um remate maciço, ao lado um buraco – o caminho do fogo. Este objecto não podia comparar-se a nenhum outro.

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