Os tectos no interior dos paços são gradeados e os sobrados das câmaras e antecâmaras por onde passam reluzem de limpeza e estão cobertos de esteiras de palha de arroz, revestidas por uma rede de junco, tão finas como os mais delicados tapetes, que quase dá pejo pisar. Em nenhum aposento há alcatifas, panos de seda ou arrás, porque as paredes são formosos painéis deslizantes, os fusuma, pintados a ouro ou cores naturais, ora representando histórias de feitos antigos dos japões, ora cenas de caça e montaria ou paisagens de lagos e montanhas.
A sala das reuniões aonde os conduzem está virada ao sul e dá para o jardim; é vasta e despojada de ornamentações, com excepção de um recesso ornamental, no vão de uma parede, onde estão expostos um kakemono – uma pintura semelhante a um mapa – com outros objectos de arte. Há ainda dois armários metidos na parede, uma mesa pequena e baixa perto da janela, um estrado de dois degraus onde o senhor atende aos deveres do seu ofício, recebendo as petições dos vassalos e as homenagens dos visitantes, ou se desenfada com a família e os amigos, ouvindo música, fazendo poemas, jogando na mesa de go, um jogo semelhante ao xadrez.
Naotoki e o pai recebem-nos, sentados sobre os joelhos no estrado, acompanhados pelas esposas, concubinas e outras damas da família, trajadas com belas roupagens de seda, umas de cabeleira postiça, outras com os cabelos soltos pelos ombros até ao chão, tão negros e brilhantes de óleo como os seus dentes de azeviche, a contrastar com a brancura do rosto pintado e a flor rubra dos lábios em botão. Fora do estrado, sentados sobre os calcanhares, alinham-se em perfeita ordem os principais fidalgos, trajados com ricos quimonos de cerimónia, imóveis e de rostos impenetráveis como estátuas de madeira pintada.
A embaixada presta-lhes homenagem com infindas zumbaias e Wang Zhi entrega-lhe o presente, que é recebido com muitos agradecimentos e manifesto prazer. Terminada a cerimónia, o necodá pede permissão para lhe apresentar as amostras da fazenda que traz, segundo fora comunicado ao mensageiro que na véspera lhes levara as provisões ao junco.
– Enviei recado aos principais mercadores da terra para virem tratar contigo do preço de toda a fazenda e dos direitos que tens de pagar. Aí os tens.
Os tratantes entram na sala e, depois das saudações devidas aos senhores, apreciam as mercadorias que os tenjikujins trazem por amostra e assentam em tudo o que há mister para o negócio se fazer a contento de todas as partes.
– Amanhã, necodá – diz Tokitaka ao capitão –, já poderás guardar as tuas fazendas numa casa que te dou para os tratos com os nossos mercadores. E poderás aposentar-te com toda a tua gente no templo de Jionji, até ao dia da vossa partida. Os bonzos estão à vossa espera.
Zhi e toda a comitiva agradecem efusivamente a bondade do príncipe, contudo daimyō já não os ouve. Perscruta os rostos dos nanbanjins, ansioso por lhes fazer mais perguntas sobre as terras do outro lado do mundo, cuja existência até então ignorara. Apesar de ser o senhor de doze ilhas com muitos vassalos, pouco conhecia do mundo; se bem que o pai ou os seus conselheiros lhe dissessem que nenhuma nação era mais poderosa, bela, cultivada e rica do que a sua, ele desejava muito conhecer outros lugares além de Tanegashima. Não pode desperdiçar a ocasião de obter esse conhecimento que lhe darão as histórias das suas vidas, pelo que manda o bonzo Shuza sentar-se junto dos quatro portugueses acocorados respeitosamente na sua frente, a fim de lhes servir de língua na dupla interpretação.
– Os chins e léquios dizem que a nação Pu-Li-Du-Jia é muito maior, tanto de terra como de riqueza, que todo o império Ming. Isso é verdade?
– É sim, meu senhor – concede Zeimoto, com voz segura, para não desfazer o crédito que o daimyō tem da pátria portuguesa.
Os três amigos haviam acordado entre si que se Naotoki fizesse perguntas embaraçosas, cujas respostas verdadeiras pudessem contribuir para o deslustre do Portugal e do seu rei no Oriente, tratariam de as embelezar com ajuda de algumas coisas fingidas ou aumentadas.
– Certificaram-me também que o vosso rei subjugou, por conquista de mar, muitas partes do mundo. É certo?
– É verdade, daimyō Tanegashima Tokitaka – confirma Borralho. – El-rei de Portugal é senhor de muitas terras de África, Arábia e Índia, além de um imenso território chamado Brasil.
Quando o intérprete termina a tradução, o príncipe fica por momentos em silêncio, como pasmado.
– Afirmaram-me ainda que o vosso rei tem mais de duas mil casas cheias de ouro e prata até ao telhado – diz por fim. – É tão rico como me dizem?
Fernão responde com muita humildade:
– Sendo o reino em si tamanho, nobre senhor, com tantas terras, povos e tesouros, não é possível dar-vos a certeza desse número.