O estampido faz acorrer muita gente e dois soldados, vendo o efeito do tiro, vão dar rebate a Tokitaka, que a pouca distância do paul assiste ao treino de uns cavalos que acabara de receber. O jovem daimyō que ama as artes militares e aprende o manejo da espada e da lança com um dos melhores mestres do Japão, desejoso de conhecer a novidade dos nanbanjins, ordena que lhos tragam sem demora à sua presença.
Os nobres japoneses são ensinados desde a mais tenra idade a não revelarem por sinais exteriores os seus sentimentos e a manterem nos rostos uma expressão impenetrável, contudo o príncipe, por força da sua juventude, não consegue dominar o espanto ao ver chegar os nanbanjins com dois criados carregados de patos e mais algumas presas, caçadas no bosque sem recurso ao arco ou à lança. Fita com um medo supersticioso os estranhos objectos que os tenjikujins trazem ao ombro, sentindo-se tentado a concordar com os do seu séquito que lhe dizem ser aquele sucesso obra de feitiçaria.
– Furanchisuku, que cousa é essa que tens nas mãos? – pergunta, tendo a curiosidade vencido o receio. – Não se pode comparar a nada que tenhamos visto em nossas vidas.
– É um mosquete, meu senhor – responde Zeimoto entregando-lho para que o examine à sua guisa. – Uma arma para a caça. ou para a guerra.
O bonzo Shuza titubeia e empalidece, incapaz de achar uma palavra equivalente na sua língua àquele nome. Fica-se por arma e, para seu alívio, o daimyō não insiste, perguntando ao outro bárbaro:
– A tua não é igual, Murashukusha, inda que seja parecida.
– Pois não, meu senhor, esta é um arcabuz.
O monge baixa os olhos envergonhado. Ambos os objectos são coisas novas, desconhecidas.
– Podes mostrar-me o que faz? Aqui mesmo. – roga o príncipe, com uma voz ansiosa de menino maravilhado por um brinquedo novo. Domina-se a custo e ordena que lhe tragam um komanaku.
O komanaku ou cisne é um alvo para tiro ao arco, que os criados correm a armar no terreiro. Zeimoto pisca o olho a Fernão, que lhe dá a sua espingarda, visto o amigo ser o melhor atirador dos três. Com o alvo à distância de cem passos, é um tiro fácil e o português carrega o arcabuz, mete-o ao ombro, aponta, chega-lhe a mecha e dispara. Tokitaka vê um clarão de relâmpago e quase ao mesmo tempo ouve um estrondo tão assustador que ele e todos os do seu séquito tapam instintivamente os ouvidos com as mãos, quedando como petrificados, ao ver o alvo desfazer-se em pedaços. O fumo que sai do cano vela por momentos a cara do atirador.
– Arcabuz – repete, esclarecendo: – Uma arma de fogo.
– Teppō! Tubo de fogo. Teppō! – brada o língua, com um sorriso de orgulhoso alívio, por se ter lembrado dessa palavra muito antiga, do tempo da invasão mongol, referida no rolo Mōko-shūraiekotoba às panelas de pólvora e outros engenhos explosivos de arremesso.
– Teppō! – exclama Takitaka. – É um bom nome para tão maravilhoso objecto: Tanegashima Teppō. Com ele até se pode matar homens ou animais. É um tesouro singular, sem igual na terra! – Faz uma pausa e acrescenta com uma ansiedade juvenil: – Eu cuido que não sou capaz, mas de bom grado aprenderia a disparar.
Fernão e Cristóvão trocam um sorriso cúmplice, comungando do mesmo saboroso pensamento que não podem formular em palavras, nem sequer em português: Cuidáveis que éramos bárbaros e toscos, por comermos com as mãos? Ora vede de quanta ciência essas mãos são capazes, por força do nosso engenho! Limitam-se a responder por acenos e por meio do tçuzzu:
– Se tu, senhor, quiseres aprender o uso da espingarda, nós de boa vontade te ensinaremos os seus segredos.
Tokitaka amadurecera com a experiência de guerra, quando o pai o deixara sozinho a defender o castelo de Ak-ogi do ataque de Shigenaga, por isso, apesar da sua juventude, entendera de imediato que era de armas como aquela que ele necessitava para reconquistar a ilha de Yakushima que o general lhe tinha tomado.
– Vós me ensinaríeis o seu segredo? – pergunta em voz alvoroçada.
– O segredo consiste apenas nisto: antes de disparar deveis preparar o coração e cerrar um dos olhos – responde Zeimoto.
– Quanto a preparar o coração, os sábios antigos ensinaram o nosso povo a fazê-lo e eu aprendi a lição. Se não seguimos o princípio do Céu em acção, movimento e repouso, acabamos forçosamente por errar. A menos que aquilo que quereis dizer com preparar o coração seja algo diferente. Se fechar um olho, não serei capaz de ver bem o que está longe.
– É para a concentração, nobre senhor – responde Fernão, surpreendido com a sabedoria do moço de quinze anos. – Fechar um olho não significa que não se possa ver claramente, mas que se está concentrado para se atingir o que está longe.
Tokitaka exclama para a assistência:
– Isso corresponde ao que Lao Tzu disse: Ver claramente o que é pequeno chama-se claridade. Não é disto que falais?
Zeimoto, vendo a corte pasmada e Naotoki tão maravilhado, diz aos companheiros, em português: