– Primeiro, Alteza, deita-lhe pelo cano uma medida de pólvora, digo, de my-oyaku para encher a caçoleta (essa pequena câmara redonda na coronha). agora a bucha de estopa. soca-a bem, assi mesmo, com a vareta da forquilha. Muito bem! Mete ora o pelouro, que deve correr folgadamente pelo cano, e uma segunda bucha. calca-a bem, isso assi, com a vareta. Tal e qual, meu senhor, até parece que usaste um mosquete toda a tua vida!

Tokitaka segue atentamente as instruções, rindo-se com os incitamentos que o tenjikujin lhe fazem na língua chim e ele consegue perceber. Agradece os aplausos dos numerosos assistentes que, todavia, mantêm os rostos impenetráveis, onde só por breves instantes perpassa um lampejo de receio.

– O arcabuz carrega-se do mesmo modo, Alteza – explica Fernão, dando-lhe a arma e o daimyō carrega-a já sem dificuldade, mostrando ter aprendido a lição e recebendo nova salva de palmas.

– Ambas as armas se disparam com o gatilho que faz baixar, por meio da serpentina (esta peça aqui), a ponta do morrão até ao buraco no cano e à my-oyaku na caçoleta (essa mesma!), para causar a explosão e disparar os pelouros. Para maior precisão, meu senhor, deves apoiar o mosquete numa forquilha. Vejo que estás prestes, Alteza, mostrai-me então a vossa pontaria.

– É preciso preparar coração e cerrar um dos olhos – repete o príncipe, enquanto ergue o mosquete à altura do ombro, franzindo a testa num esforço de recolhimento e fechando um dos olhos ao apontar ao alvo.

Os dois portugueses procuram manter o rosto inexpressivo como os japões, apesar da vontade de rir que lhes causa Tokitaka a assumir a atitude de um mosqueteiro, esforçando-se, como um aluno aplicado, por recordar os ensinamentos dos seus mestres. Soa a explosão, o tiro parte, o príncipe oscila e cai de costas, projectado pelo coice da arma, fazendo acorrer os criados e os ministros em pânico. Fernão e Zeimoto erguem-no do solo, igualmente assustados pelas consequências que lhes podem advir do acidente. Com um sorriso de pasmo, o daimyō pergunta-lhes:

– Acertei?

Trazem-lhe o alvo. O pelouro de chumbo fizera um buraco na orla esquerda do círculo.

– Acertaste, meu senhor!

– E logo ao primeiro tiro! – bradam os dois portugueses, batendo-lhe as palmas, secundados por todos os presentes, aliviados de o verem são e salvo. O príncipe solta uma breve risada, disfarçando as lágrimas de orgulho que teimam em assomar-lhe aos olhos, toma o arcabuz das mãos de Fernão, assume a postura de arcabuzeiro e prepara-se para disparar.

As duas armas de fogo passam a ser o gosto e passatempo do Naotoki, cuja felicidade não conhece limites quando recebe lições de tiro ao alvo dadas pelos dois tenjikujins. Com elas se exercitava, desde manhã até à noite, de tal modo que não tardou a exceder os seus mestres em perícia, com os desacertos dos primeiros tempos a converterem-se em tiros certeiros, conseguindo por fim, em cem disparos, acertar cem tiros no alvo.

Os seus ministros, decerto instigados pelo humilhado Shigetoki, determinaram favorecer os desejos de desforra de Tokitaka e mandaram chamar o mestre armeiro, ordenando-lhe que tomasse aquelas duas espingardas por modelo e aprendesse com os tenjikujins a fazer outras da mesma sorte.

VI

Tropeça-se sempre nas pedras pequenas, porque as grandes logo se enxergam

(japonês)

Do que toca às mulheres, e de suas pessoas e costumes:

– Em Europa a suprema honra e riqueza das mulheres moças é a pudicícia e o claustro inviolado da sua pureza; as mulheres de Japão nenhum caso fazem da limpeza virginal nem perdem, por a não ter, honra nem casamento.

– Em Europa, o encerramento das filhas e donzelas é muito grande e rigoroso; em Japão as filhas vão sós por onde querem por um dia e muitos, sem ter conta com os pais.

– Entre nós não é muito corrente saberem as mulheres escrever; nas honradas de Japão se tem por abatimento as que o não sabem fazer.

– As de Europa perfumam os cabelos com cheiros odoríferos; as Japoas andam sempre fedendo ao azeite com que os untam.

– As de Europa raramente usam de cabelos estranhos ajuntados aos seus; as Japoas compram muitas cabeleiras que vêm de veniaga da China.

– As da Europa prezam-se das sobrancelhas bem feitas e concertadas; as Japoas as tiram todas com tenaz sem lhe ficar um só cabelo.

– As de Europa é defeito parecerem-lhe muito as posturas e afeites do rosto; as Japoas, quanto mais alvaiade põem, tanto o têm por maior gentileza.

– As de Europa trabalham com artifício e confeições por fazer os dentes alvos; as Japoas com ferro e vinagre trabalham por fazerem a boca e os dentes pretos.

– As de Europa chegam-lhes as mangas até o colo da mão; as Japoas, chegam-lhe até meio braço e não têm por desonestidade descobrir os braços e peitos.

– Entre nós andar uma mulher descalça ter-se-ia por doida ou desavergonhada; as Japoas altas e baixas a maior parte do ano andam sempre descalças.

(Tratado do Padre Luís Fróis170)

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