– Se Tokitaka faz tamanho caso das nossas armas é porque até agora, nesta terra, nunca se viu tiro de fogo e não sabem determinar o que seja, nem entendem o segredo da pólvora. Isto pode ser uma boa jogada a favor de uma futura amizade e tratos com os portugueses. Ainda te hei-de ver, Fernão, como feitor de uma feitoria dos japões.

Fez mais três tiros às aves, matou um milhano e duas rolas, arrancando sempre muitos aplausos, exclamações de espanto ou gritos de medo. Terminada a demonstração, Tokitaka monta a cavalo, agarra Zeimoto por um braço, içando-o para as ancas da montada, com grande escândalo dos fidalgos do seu séquito, pondo-se a caminho, seguido por Pinto, Borralho com toda a sua gente a pé. Correndo na sua frente vão quatro porteiros, com bastões ferrados nas mãos, que lançam um pregão ao povo:

– Tanegashima Tokitaka, senhor de nossas cabeças, manda e quer que todos vós honreis e venereis este tenjikujin do cabo do mundo, porque de hoje por diante o faz seu parente, assim como os facharões que se sentam junto de sua pessoa, sob pena de perder a cabeça o que isto não fizer de boa vontade.

A que todo o povo respondia:

– Assim se fará para sempre.

Zeimoto sorri, muito ufano desta pompa mundana, virando a cabeça sorrateiramente para trás a fazer caretas de perraria a Fernão e a Cristóvão, que vão esbofados, a remoer a inveja, resmoneando: De nada se faz um muito, Não perdes pela demora, meu sendeiro, Faz-se da pulga um gigante!.

Chegados ao primeiro terreiro dos paços, Tokitaka desmonta e, sem cuidar nos dois nanbanjins que deixa para atrás, toma o admirável Furanchisuku pela mão, levando-o para comer com ele e dormir em sua casa.

169 Shaku – medida de comprimento que corresponde a 30 cm.

V

Se te queres vingar do teu inimigo, nada faças:

senta-te à sua porta e espera

(japonês)

Yaita-shi Kiyosada ichiry-u no keizu ou Genealogia da família Yaita Kiyosada:

No oitavo mês do Mizumoto U [o décimo segundo ano, da Lebre, mil quinhentos e quarenta e três], um navio nanbansen arribou à praia de Nishinomura. Traziam teppō e deram dois de presente aos senhores da ilha. Os senhores ficaram extremamente felizes com o maravilhoso objecto que receberam de uma terra estrangeira e Kiyosada foi mandado, com o seu aprendiz, estudar a técnica do seu fabrico. Kiyosada pensou que os tenjikujins até podiam ser honestos, mas ele não se atreveu a ir ter com eles. Achou melhor enviar a filha ao capitão do navio, Murashukusha, com o fito de se virem a casar depois de um dia de amizade e então ele poderia aprender a fazer os teppō.

A sua filha Wakasa nasceu no décimo quinto dia do quarto mês do Hinoto [o sétimo ano, do Porco] da era Taiei [mil quinhentos e vinte e sete].

O Festival do Crisântemo tinha lugar no nono dia do nono mês e Tanegashima rescendia com o perfume das flores que eram também um festim para os olhos, todavia a maior festa para o coração do jovem Tokitaka consiste em observar os três nanbanjin a caçarem com as mortíferas teppō no seu parque. Vendo Furanchisuku e Murashukusha a acercarem-se com muitas pombas e rolas mortas, cisma em como tudo poderia ter sido diferente, no seu confronto com o general Shigenaga, se então possuísse umas dezenas daquelas armas de fogo. Com amargura recorda o poema de um autor desconhecido sobre a guerra fratricida,

Um pássaro com

um só corpo mas

dois bicos

picando-se

até à morte.

Sem a ajuda do pai e com a diminuta hoste de defesa do castelo, não pudera fazer frente ao agressor, mas, se conseguisse obter dos tenjikujins os segredos do fabrico das teppō e do my-oyaku – o pó mágico que com o seu estrondo levava a morte ao inimigo – mandaria fazer um bom número delas, adestraria no seu uso uma tropa de elite e lançar-se-ia à reconquista da ilha de Yakushima, tomada pelo seu tio Tokinori, a fim de vingar a passada humilhação e restaurar a sua honra. Tinha de possuir pelo menos uma, para servir de modelo aos seus armeiros e estava disposto a pagar qualquer preço que os tenjikujins lhe pedissem pelo precioso objecto.

Fernão e Zeimoto prestaram-lhe as devidas cortesias, trocando entre si um sinal de entendimento quando, à vista das espingardas, os olhos do daimyō luziram de cobiça, iluminando-lhe o rosto que pretende ser impenetrável. Tokitaka corresponde às saudações com muita afabilidade, sentando-se com eles no chão do pequeno pavilhão coberto de tatamis onde os criados lhes servem chá com alguns pratos de salgados para a merenda. Sem se importar com a estupefacção e censura que por momentos desmancham a postura impassível dos seus ministros, o daimyō serve-lhes a bebida com a sua própria mão; os dois portugueses agradecem a honra, fazendo o kotao, ao modo chim, curvando-se para tocar com a testa três vezes no chão.

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