Há muitas gerações que os Yaita serviam fielmente os senhores de Tanegashima, sem jamais discutirem ou recusarem uma ordem e Yaita Kinbee Kiyosada não seria o primeiro a fazê-lo. Apesar de ser um mestre na arte de forjar espadas, nada sabia do fabrico de armas de fogo, sendo os dois teppō do seu senhor as primeiras que vira em toda a sua vida, contudo, preferia morrer a confessar a sua ignorância ou imperícia para reproduzir os misteriosos objectos. O sapo do poço não conhece o oceano, pensou amargurado. Se não desse conta do recado, só lhe restaria uma saída para salvar a face e poupar o nome da família à desonra: o seppuku.

Diante do daimyō, dos seus ministros e dos tenjikujins, disfarçara o embaraço, mandando os seus aprendizes Makise, Hirase e Ishihara fazerem desenhos dos dois teppō com toda a minudência e ele próprio copiara as partes mais ardilosas, sob o olhar cioso de Tokitaka que, quando não estava a exercitar-se com os artefactos, os guardava em lugar secreto nos seus aposentos como tesouros da família, não os confiando a ninguém. Kiyosada ouvira com a maior atenção as instruções sobre o seu uso, tomara nota de tudo o que pudera entender do arrazoado do amo. o que, por sua má fortuna, fora bem pouco.

As armas não pareciam ter grandes diferenças entre si, tirando o cano de ferro, o caminho do fogo; com dois a três chaku de comprimento, direitas, cavadas por dentro, mas muito pesadas, a coronha de madeira de cerejeira era mais curva numa do que na outra, com um remate maciço por baixo. Embora nenhum dos seus acessórios, só por si, lhe tivesse parecido de difícil execução, Kiyosada regressara a casa com o coração pesado de angústia, por não lhe darem ocasião de desmontar a arma para a estudar por dentro. Suspeitava de que aqueles objectos tão poderosos como mortíferos fossem obra de feitiçaria dos tenjikujins, escondendo no seu âmago de madeira e ferro um sortilégio capaz de o amaldiçoar ou destruir.

Guardara-se de partilhar essas desconfianças com os aprendizes, pois o não falar é uma flor, como costumava dizer à sua filha Wakasa, moça alegre e palradora. Lembrara-lhes, pelo contrário, a grande honra que lhes fora concedida de serem os primeiros do seu mester a criarem as extraordinárias armas, um feito que, se fossem bem sucedidos, lhes haveria de trazer fama e fortuna.

Kiyosada começara a trabalhar afincadamente num tronco de cerejeira para criar a coronha, conseguindo-o após alguns dias de trabalho, muita perseverança e uma boa quantidade de madeira desperdiçada. O sucesso aligeirara-lhe o coração, a ponto de trautear um poema, coisa que os seus aprendizes não tinham memória de o ver fazer. Com as ferrarias, todavia, não tivera a mesma sorte, consistindo cada peça num verdadeiro quebra-cabeças.

– O macaco também cai da árvore! – suspirava, desconsolado, ao fim de um dia de luta na forja. – Até um mestre experimentado pode errar.

Durante os dias seguintes, os aprendizes sofreram-lhe com humildade as censuras aspérrimas e os anexins que ele lhes lançava com mais amargura do que ira.

– Escondes a cabeça mas não tapas o rabo, Makise – vociferava, mostrando-lhe como só em parte resolvera a dificuldade. – Não contes com a pele antes de apanhar o animal – lançava a Hirase, arrefecendo o júbilo do moço ajudante que antecipara a vitória ao ver o gatilho, porquanto a peça não encaixava na coronha.

Embora admoestasse os aprendizes, era ao mestre que ele recriminava pela inépcia e ignorância. Por fim, conseguira encaixar todas as peças do quebra-cabeças, todavia, só com muito esforço lograra fechar a coronha na parte inferior e temia que a teppō se estilhaçasse com a explosão da pólvora, se o encaixe não fosse assaz forte para a suportar. Apesar do defeito, Kiyosada impava de orgulho por ter sido o primeiro armeiro do Japão a criar uma tal arma de fogo que parecia mais perfeita do que as originais.

– Tanegashima teppō! – bradara, como se anunciasse o nascimento do filho primogénito e repetira, emocionado: – Tanegashima teppō.

Carregara a arma com a pólvora, conforme o daimyō lhe ensinara, mas Ishihara, o mais velho dos seus aprendizes, não o deixara disparar o arcabuz:

– Em caso de acidente, poderíeis ficar impedido de prosseguir com o vosso trabalho, o que não podemos consentir.

Kiyosada cedera contrariado. Ishihara metera a arma ao ombro, chegara-lhe o morrão que já tinha aceso e disparara na direcção de um balde que estava preso à entrada da forja. O estrondo da explosão que estilhaçou o arcabuz fizera fugir os dois aprendizes, sem olharem sequer para o companheiro que jazia no chão com parte do queixo arrancado e sem dois dedos da mão esquerda.

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