– A família Yaita é muito tradicional – esclarece Zhi. – A casamenteira disse-me que é costume as suas filhas continuarem a viver em casa dos pais até ao nascimento do primeiro filho. O marido pode ir viver com a esposa e trabalhar para eles como um filho adoptivo ou apenas visitá-la algumas noites, regressando a sua casa depois de cada visita.
– Do mal o menos.
– Tereis sempre de lhes prestar alguns serviços, como um bom filho, os quais terão a ver.
– .com o fabrico das armas, não digas mais! – atalha Fernão, resignado.
Bebe o último trago e desce ao reservado a fim de se preparar. Iria receber a futura esposa com um sorriso nos lábios, porque a homem desamorado não se pode ter amor e a moça também fora obrigada àquele casamento, forjado pela ambição da família. Para mais, tinha o dobro da sua idade e uma aparência que costumava assustar os meninos que o viam passar nas ruas de Ak-ogi, embora procurasse atenuar as diferenças quer no trajo quer no corpo, banhando-se tantas vezes quanto eles, aparando as barbas e os cabelos, por saber que tomavam o excesso de pêlo como coisa de bárbaros, sem polícia. A educação e disciplina, tanto dos homens como das mulheres e crianças, dava-lhe uma certa esperança de que, mesmo aterrorizada com a sua vista, a noiva não começaria aos gritos nem saltaria do junco para o mar, embora pudesse sofrer um vagado e cair no chão desacordada.
Desejara com toda a sua alma o casamento com Huyen, a Noiva Roubada, a quem amara com uma desatinada paixão, que perdurara além da sua morte; na China, aceitara o amor da desafortunada Meng, esperando que a amizade com o tempo se fizesse bem-querer, tornando-lhe o desterro menos penoso. Ainda mal refeito da sua perda, impunham-lhe esta noiva que não conhecia, nem desejava, mas não podia recusar.
A chegada da funce que transportava as duas mulheres com os seus criados fê-los acorrer à amurada, para as receber. Foi um momento atribulado, o da sua passagem para o junco, com Zhi e Mota a içarem Fukumi, auxiliados pelos desajeitados servos e Borralho a ajudar a imobilizar o barco para o noivo receber Wakasa nos seus braços.
É leve, graciosa como uma boneca de louça e, antes de a pousar no convés, Fernão sente-lhe o medo no corpo que treme, na respiração entrecortada como se lhe custasse respirar. Condói-se da pobre menina, vítima inocente de uma intriga de ambiciosos, enviada ao junco como uma rês ao açougue ou, pior ainda, como uma condenada sem culpa ao cutelo do carrasco.
Contempla-lhe o rosto pela primeira vez e o abalo que sente é semelhante a um murro no estômago; um vagado enevoa-lhe os olhos, cambaleia como se estivesse bêbado e só com muito esforço logra recompor-se. Apesar do alvaiade que lhe cobre o rosto, dos olhos baixos, por timidez ou modéstia, Wakasa é a viva imagem da Noiva Roubada. Na sua turvação, Fernão pensa se não será o sake que lhe subiu à cabeça ou se, mau grado o devaneio com Meng, a sua paixão por Huyen ainda arde no seu coração como um rescaldo de fogueira, cuja flama a presente situação da noiva forçada veio reacender, como um sopro infernal, ensandecendo-o a ponto de o fazer imaginar fantasmas.
Ninguém se apercebe da sua perturbação, porque nesse momento o capitão acolhe as recém-chegadas com palavras corteses, a que a senhora Fukumi responde apropriadamente, entregando-lhe em seguida os presentes enviados pela família da noiva com o recado de Kiyosada para o Capitão Murashukusha: Se me ensinardes a fundir espingardas, dou-vos em recompensa esta minha humilde filha.
VIII
Mãe, que é casar? Filha, é fiar, parir e chorar
(português)
Genealogia da família Yaita Kiyosada:
O plano [de Kiyosada] resultou bem e ele conheceu o método da sua fabricação. Contudo, apesar de moer o cérebro, não conseguiu dominar a técnica do fechamento do cabo da coronha.
Passados alguns meses, o nanbansen soltou as velas e partiu com a sua filha a bordo. No momento da partida Kiyosada recebeu muitos presentes do nanbanjin.
No ano seguinte, o Kinoe tatsu [o décimo terceiro ou ano do dragão, mil quinhentos e quarenta e quatro], chegou outro nanbansen e ancorou ao largo de Kumano junto de Sakaimura. A bordo vinha Wakasa e pai e filha reuniram-se de novo.
Por felicidade vinha no navio um ferreiro e, com ele por professor, Kiyosada logrou aprender a técnica do fechamento do cabo da coronha.
Nesse tempo, estava lá também Tachibanaya Matasabur-o de Sakai em Izumi que, considerando os teppō uma maravilha, fez Kiyosada seu professor e aprendeu a sua técnica.
Os Senhores consideraram que os dois teppō eram para a glória do Japão. Foram tesouros da família durante anos, mas perderam-se num incêndio.
Fernão Mendes vê-se a viver um pesadelo do qual não consegue despertar. Apenas numa semana conhecera Wakasa, dormira com ela, casara-se e começara a trabalhar com o futuro sogro. Kiyosada fora o causador desse frenesim, como se a noiva estivesse prenhe e o casório fosse um caso de sangria desatada, para prender o pretendente antes que ele pudesse embarcar no junco e fugir.