A árvore quer sossego, mas o vento não pára de soprar, suspira. Por amor do pai, de Tanegashima Tokitaka e do Nippon, sacrificar-se-á a viver a mais miserável de todas as vidas desde sempre vividas, casando-se com um horrível nanbanjin e viajando para os confins do mundo, abandonando tudo o que sempre amara, como lhe fora predestinado. Graças ao seu sacrifício, Kiyosada aprenderá o segredo das teppō e já não cometerá o seppuku, Tokitaka terá as armas para reconquistar os seus domínios e o império do Sol Nascente ganhará um novo instrumento para combater os inimigos. É uma responsabilidade demasiado pesada para uma pequena formiga como ela, contudo, se com o seu sofrimento alcança o que todos esperam, talvez na próxima existência já nasça num corpo de homem e logre a sua própria salvação.

O noivo que lhe destinam é o mais letrado, afável e cortês dos nanbanjins, segundo lhe contara a mãe, a modo de consolo. As idas de Kiyosada ao templo de Jionji tinham sido para sondar Tadashi Shuza e pedir-lhe conselho sobre os tenjikujins, a fim de escolher aquele que melhor pudesse servir os seus propósitos: um homem sensível aos encantos de Wakasa, a ponto de aceitar casar com ela e não a fazer demasiado infeliz.

O monge não hesitara em indicar-lhe Murashukusha, que se mostrava encantado com tudo o que via, cuidadoso em não cometer faltas de cortesia, sempre a fazer perguntas para conhecer os usos da terra e esforçando-se por aprender a falar a língua, sendo também de todos os tenjikujins o que melhor se fazia entender no idioma do Grande Ming.

Fukumi, a irmã mais velha de sua mãe, escolhida para nakodo ou intermediária entre as duas partes na concertação do casamento, parecia mais resignada do que feliz com o encargo e não disfarçara o seu mal-estar perante a sobrinha, declarando-lhe as suas premonições contra um matrimónio que não podia agradar aos céus.

– É tão fora dos bons costumes como nunca houve outro em todo o Nippon, desde o princípio do mundo! – repontara indignada. – O nanbanjin não segue sequer a nossa religião e, só por isso, os espíritos dos nossos antepassados hão-de retirar-nos a sua protecção.

Wakasa enxugara o pranto silencioso à manga do quimono e a tia, condoída do seu desgosto, acrescentara em tom mais brando:

– És uma boa filha, o teu sacrifício há-de ter recompensa.

Chegara prestes o dia da consumação do castigo, que outra coisa não era a sua entrega ao estrangeiro, a qual terá lugar no grande junco agora despejado de gente. Vestida com um quimono de Outono de formoso padrão, Wakasa segue de carroça, a caminho do cais, com a tia e a terceira concubina de seu pai, uma filha de camponeses, comprada mais para criada de Asamia do que para consorte. Sente-se gelada como se, numa manhã de rigoroso Inverno, tivesse saído de casa em roupas de Verão.

– E se eu não agradar ao nanbanjin? – pergunta com a voz a tremer, não de medo, mas de esperança. – Ele pode não me querer para sua esposa.

– Que os céus o não permitam! – alarma-se Fukumi. – És mui formosa e isso é meio caminho andado para que te queira, no entanto, deves fazer tudo o que estiver ao teu alcance para lhe agradar. – Faz uma pausa e acrescenta, mais para si mesma do que para a sobrinha: – Ele não se atreverá a recusar-te, depois de eu ter dito ao capitão do nanbansen e seu nakodo, que o Senhor Tokitaka tem grande prazer com este casamento.

Desse mesmo assunto falam os portugueses com o corsário Wang Zhi, porém, em vozes mais acesas e ânimos exaltados.

– Por que hei-de ser eu? Porquê o pobre de mim? – brada Fernão, em freimas. – Acaso é sina minha, isto de sempre me cair nos lombos todos os sarilhos? Ainda não fez três semanas que aqui aportámos e já me querem casar? Mal acabei de sair de uma e logo tratais de me meter em outra? O casamento pesa no muito e descansa no pouco!

– A principal razão é teres sido tu o escolhido pela família da noiva – argumenta Zeimoto, disfarçando o sorriso, para não o agastar ainda mais. – Depois, António da Mota é casado, eu tenho a minha conversada em Liampó e o Cristóvão ainda não se refez da perda de Lijie. Portanto, sobras tu que és solteiro e.

– E vós credes que eu já não sinto nada por Meng? Tenho, por força, de me casar com uma gentia, de rosto caiado de alvaiade e dentes de carvão, para vos livrar de embaraços? O pai da moça só quer saber do fabrico da pólvora e dos arcabuzes, mas como não tem ânimo para nos perguntar, peita-nos com a filha. Puta que o pariu! Pois sabei que não me caso! – E repete, furioso, em língua chim para Wang Zhi entender: – Não me caso!

O rosto do capitão endurece, a sua voz soa fria como a lâmina da espada, em cujo punho enclavinha a mão:

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже