– A ira queima o entendimento, senão veríeis que não casar está fora de questão. Kiyosada é um samurai, o principal armeiro do senhor de Tanegashima, que tudo fará para ter os seus próprios teppō. É o primeiro casamento de uma japoa com um chenchicogin, que se faz nesta nação, uma grande honra que vos concedem. Aceitai essa união porque, sendo vós mercador, os laços com essa família hão-de trazer-vos fortuna nos tempos próximos.
– Mandai dizer ao armeiro, pela alcoveta que trata deste negócio, que lhe ensinaremos a fazer as espingardas, sem que tenha de sacrificar a filha! – insiste Fernão, embora sabendo que está a falar para as orelhas moucas do corsário. – Ademais, escolheram mal o noivo, porque eu não conheço nemigalha do fabrico das armas ou da pólvora, apenas sei usá-las!
– Se os ofenderdes com a vossa recusa – retorque Zhi, como se não o tivesse ouvido –, pagaremos todos pela vossa falta e não mais poderemos volver aqui a fazer tratos, isto supondo que nos deixarão partir, em vez de abrasarem o junco e de nos massacrarem a todos para limpar a sua honra.
– Vossa mercê sabe que o capitão está certo – apoia António da Mota. – O casamento é feito pelos ritos gentios, por isso só terá valor aqui. Quanto à vossa esposa, quando partirmos, podereis deixá-la cá com a família ou levá-la e vendê-la mais tarde em qualquer porto, se a não quiserdes.
– O língua disse-nos que no Japão é frequente dar-se uma filha a alguém para pecar ou ganhar com ela – caçoa Zeimoto. – Sendo formosa, ainda te poderá valer em caso de necessidade, como sucede com muitos dos nossos em Goa, Malaca e outras partes quando a Fortuna não lhes sorri põem as suas bichas a render.
– Cuidais que sou algum alcaguete, para viver à custa de mulheres? – riposta em sanha.
Borralho lembra-lhe com uma ponta de ironia:
– Não costumas dizer que a vida é como cebola que se descasca chorando? Bebe mais umas taças de sake para afogar essas mágoas.
– Quem perde honra por negócio, perde o negócio e a honra – regouga Fernão, ripostando com outro refrão, já vencido.
Depois de beber várias taças de vinho aquecido, sente-se mais reconfortado. Peregrinava há já alguns anos pelo Oriente, tendo sofrido grande soma de reveses e tormentos, o que lhe permitia reconhecer de imediato uma situação delicada ou perigosa nos tratos com povos tão ciosos da sua honra que bastava a mais pequena acendalha para desencadear um incêndio de paixões que só terminaria quando tivessem lavado as ofensas com traição e sangue. Assim, não faria nada que pudesse pôr em risco a sua segurança e a dos cem companheiros, sujeitando-se a mais um desses entremezes com que os Fados o brindavam, de tempos a tempos, para o atormentarem.
– E vêm entregar-me a donzela, antes do casamento? – pergunta em língua chim; apesar de já ter muito visto, custava-lhe a crer no pouco valor em que se tinha a castidade das moças naquele lado do mundo.
– É um bom costume esse de dar a provar o doce, a ver se o freguês gosta.
Zeimoto não resistira a fazer o chiste brejeiro para desanuviar os ares carregados, arrancando uma gargalhada a Borralho e a Mota; Zhi arreganha os lábios num leve sorriso, por não entender o alcance da graça e Fernão mantém a cara de ferrabrás.
– Se assim é, ainda estou a tempo de arrepender-me e de dar o dito por não dito. – lança-lhes mordaz.
– De modo algum! – volve-lhe o corsário e a sua mão pousa displicente no copo da espada. – Sereis um noivo exemplar, meigo e galante como só os portugueses sabem ser, segundo afirmam as jaus, as chins, as índias e outras fêmeas do resto do mundo. No junco estareis a sós, mais à vossa guisa do que no templo, apenas com uma serva para preparar a comida e atender à vossa noiva, depois de sairmos. Passareis o dia e a noite juntos, a fim de vos conhecerdes, embora sem o auxílio de um língua.
– Tereis de vos contentar com a linguagem dos gestos. Espero que tu sejas um bom conversador, mesmo sem a dupla interpretação. – interrompe Zeimoto, provocando novos risos, acrescentando por entre gargalhadas: – Mas, se precisares, olha que eu não me importo de te servir de língua.
– A casamenteira disse que o compromisso será selado pela carta do dia seguinte, em que confirmareis o vosso agrado pela noiva e o casamento – conclui o corsário, quando os risos abrandam. – Sem isso, a família não poderá tratar da cerimónia. Para ganhar tempo, como não conheceis a língua, pedi ao monge tçuzzu que a escrevesse nos termos habituais. Aqui a tendes – estende a carta a Fernão que, de tão pasmado, a recebe sem dizer palavra. – Dos presentes para a noiva e seus pais me encarrego eu.
A novidade da carta do dia seguinte fechava a cadeado o colar de ferro que lhe tinham lançado ao pescoço, qual vítima de uma intriga, apanhada à traição e metida em cadeias, sem direito a apelação.
– Além do segredo da pólvora e das armas, que mais esperam de mim, a noiva e a família? – pergunta com ironia, num último assomo de brio. – E onde irei viver com a minha esposa?