Os soldados e marinheiros da armada que estava surta no porto, vendo-se sem rei e sem governo, começaram por assaltar e roubar os barcos de mercadorias, passando em seguida ao saque da cidade, não deixando casa por esventrar, matando infinda gente e cativando outra que levaram a vender em diversas partes; por fim, quando já nada restava para roubar, lançaram-lhe fogo, que a consumiu toda até aos alicerces, fugindo nos barcos da armada, sem que o seu almirante tivesse força para os impedir.

Desesperado com a situação do reino e sem mão nos motins, o sultão de Pasuruan, em concerto com Hasanudin e outros rajás seus aliados, embarcaram para Japara onde, em breve tempo, elegeram o Patem Sunan Prawata como Pangeran do reino de Demaa, com grande contentamento do povo, levando-o logo para a capital, com um pequeno exército, para castigar os culpados e pacificar o reino.

Durante estes sucessos, os portugueses sentiram-se um joguete da sorte ou de Hasanudin, que os levava consigo para onde quer que fosse, tanto aos sãos como aos enfermos. Durante os motins, mantiveram-se sempre a salvo no navio do sultão, fortemente defendido, não podendo por isso escusar-se a acompanhá-lo a Japara, nem a fazer a viagem triunfal de regresso a Demaa com o novo Pangeran.

Contudo, vendo que a paz tardava, por causa dos castigos de algumas centenas de saqueadores da cidade que não tinham logrado fugir e foram empalados ou queimados nos barcos onde os prenderam, os portugueses temeram que a violência e a revolta que continuava a grassar na terra não se limitasse às punições dos criminosos.

– Escapámos da primeira revolta, mas a nossa sorte pode mudar – observa Fernão, cansado de estar metido no barco, por não se atrever a andar na cidade.

– Se não partirmos já para Banten – acode Rui de Moura enfrenesiado –, perderemos esta monção e eu não quero passar aqui nem mais uma semana, muito menos outro Inverno!

– Hasanudin tem de nos deixar ir embora! Já cumprimos as nossas obrigações para com ele, à custa de grandes trabalhos, do nosso sangue e da morte de muitos companheiros.

– Tens razão! – concordou Fernão, acrescentando com a sábia prudência que os companheiros já lhe conheciam e quase sempre acatavam: – Todavia, devemos ter muitas cautelas com esse pedido, dar a el-rei boas razões para a nossa ida, fazer de modo que seja ele a mandar-nos embora livremente e satisfeito connosco. para que nos pague aquilo que nos prometeu.

Hasanudin não pôs entraves à partida dos seus portugueses, mostrando-se até muito satisfeito com a sua participação na guerra. Manteve a palavra – de príncipe bem inclinado e largo de condição, como Fernão contaria mais tarde – quitando-lhes os direitos às fazendas, pagando cem cruzados a cada um dos vivos e trezentos aos herdeiros dos catorze que tinham morrido no seu serviço.

Quinze dias depois, partiam de Banten para a China, com o barco cheio de pimenta, em conserva com outros quatro navios de portugueses igualmente carregados.

189 Expressão malaia que quer dizer estou morto, morro.

LIVRO VII

MAR DE ANDAM

PEGU-BRAMAA

Chegámos onde el-rei estava assentado em um muito grande catre, assim mesmo dourado, com muito grande soma de coxins grandes e pequenos todos lavrados e por eles muita pedraria e aljôfar. E chegados diante dele lhe fizemos nossa reverência segundo o costume da terra, que é com as mãos cruzadas sobre os peitos e a cabeça quão baixa possa ser. E el-rei por nos fazer grande honra se assentou na cama direito e se riu para nós; e então lhe amostrámos as armas .

Depois de tudo isto apresentado lhe mostrámos o cavalo que levávamos, que era arábio ruço pombo, em o qual el-rei mandou cavalgar e que o passeassem. E depois de bem passeado, el-rei ficou mui contente dele, porque era formoso e bem arrendado. Isto assim acabado, fomos todos tomados e levados por certos homens fidalgos que nos meteram em uma câmara que debaixo deste cadafalso estava e nos vestiram a cada um sua roupa de brocadilho, feitas à usança da terra, e também nos deram cada um sua touca.

E isto vestido sobre os nossos vestidos que levávamos e com uns cingidouros que nos deram, cingidos por cima, parecíamos bestas mal albardadas.

E assim nos tomaram a levar perante el-rei, o qual desde que nos viu com tão más disposições começou-se de rir, perguntando a esses fidalgos que lhes pareciam os portugueses vestidos à sua arte.

E eu, que não estava muito contente com tal zom

baria, fiz que não atentava nisso e olhei se podia ver alguma cousa do aparato d’el-rei; e contei os homens da guarda que estavam dentro .

(Autor anónimo)

I

Meias verdades são piores do que falsidades

(bengali)

Carta de Garcia de Sá a El-Rei D. Manuel:

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