Fernão Mendes Pinto e os restantes portugueses maldizem a ganância que os levou a aceitar a proposta do sultão de Sunda para o seguirem na guerra. A monção da China estava a chegar e, apesar dos sucessivos desaires, o Pangeran de Demaa não desistia de tomar a cidade. As poucas informações que os carrascos arrancaram aos cativos bastaram para lhe dar a certeza da vitória: o moço rajá fora ferido, tinham-lhe matado muita gente e achava-se quase sem munições.
Trenggana mandara os seus porteiros de maças e trombetas a cavalo por todo o arraial, com o pregão de que, dentro de nove dias, todos deveriam estar a postos para o assalto final que ele daria a Panarukan, à escala vista com todo o exército. Durante sete dias o campo fervilhou com os preparativos para a investida, fazendo espadas, machados, lanças, artifícios de fogo e minas, construindo escadas e máquinas de guerra para o assalto às trincheiras e muros que protegiam a cidade. Na manhã do sétimo dia, o Pangeran reuniu conselho com os seus oficiais para concertarem o ataque das suas forças.
Trenggana está impaciente com os debates que se prolongam há horas sem que se chegue a acordo de como, onde e quando se fará o cometimento. Desconfia de alguns senhores que entraram na guerra por obrigação de vassalagem e estão desejosos de abandonar o cerco para volverem aos seus reinos e senhorios. Sente a boca seca e pede ao pequeno pajem que lhe dê bétele para mascar, mas o moço que segura nas mãos a caixa com as folhas da planta não obedece, seja por estar desatento ou porque com o ruído das vozes não ouve a ordem.
O imperador volta a percorrer com os olhos os rostos animados pela discussão, procurando divisar a oposição. O genro dissera-lhe que os aliados temiam perder a vida numa guerra inútil porque, mesmo que tomassem a cidade (o que não era certo, diziam), com a mortandade que não deixaria de se fazer, pouca gente restaria, no fim, para ser convertida à Lei de Mafamede, pois era costume dos amoucos de Blambangan matarem-se juntamente com as mulheres, os filhos e todos os parentes e servidores que os quisessem acompanhar, para não se renderem. Assim prevenido, requerera a todos os senhores que lhe dessem o voto por escrito, para os atemorizar e vergar à sua vontade.
Está a arder de ira e, sentindo mau gosto na boca, volta a pedir o bétele, com o mesmo resultado, porque o rapazola só tem ouvidos para as palavras de guerra e planos de ataque que cada um dos capitães defende.
– Dá-me bétele – repete, já impaciente, embora sem zanga.
O pajem sobressalta-se quando um dos rajás lhe puxa o pano da veste e faz sinal para que sirva o Pangeran. O moço ajoelha-se logo aos pés do sultão, estendendo-lhe a caixa, de onde ele tira duas folhas que mete na boca.
– Não me ouviste? És surdo? – repreende-o num tom distraído, tocando-lhe ao de leve na cabeça, de olhos postos no almirante que fala.
No calor da discussão, ninguém se apercebe do incidente, nem do gesto do Pangeran. Ninguém, excepto o pajem que fica a remoer a ofensa. O imperador, com aquele có de desprezo que lhe dera na cabeça, humilhara-o em público e o filho do rajá de Surabayaa, ao desonrar-se desonrara também toda a sua nobre família. Uma mancha que só poderá ser lavada com sangue. Suspira, enche de novo o peito de ar, pronunciando em silêncio uma prece à deusa da vingança e aos espíritos dos seus antepassados.
Acerca-se do Pangeran em jeito de querer dar-lhe de novo o bétele, porém, em vez da taça empunha o seu pequeno cris de prata, que traz por adorno na faixa da cintura, e enterra-lhe a lâmina no coração.
– Eu sou filho de Patem Pandor, sultão de Surabayaa, não sou um cão que ladra de noite pela rua, ao qual se dá um có na cabeça, para o enxotar!
– Kita mati 189– murmura Trenggana, expirando.
Assim morria, de morte inglória e assaz humilhante, às mãos de uma criança de doze anos, o poderoso Pangeran, conquistador e imperador de toda a ilha de Java, Angenia, Bali, Madura e todas as mais ilhas do arquipélago, diante dos sultões e rajás seus vassalos que, paralisados de pasmo, só demasiado tarde se lançaram sobre o pequeno regicida, manietando-o, enquanto outros procuravam em vão socorrer o soberano agonizante.
O campo dos justiçados erguia-se como uma floresta de sessenta e duas tenebrosas árvores, de corpos empalados, com aves rapaces a bicarem-lhes os olhos e as carnes.