– Espetaram-nos vivos em caloetes grossos, que lhes meteram pelo sesso e lhes saíram pelo toutiço – conta Fernão, com voz trémula e ainda arrepiado do que vira, aos companheiros feridos que não tinham podido assistir ao castigo. – Primeiro foi o pajem, que não passava de um menino e vinha muito escorchado dos tratos que lhe deram para saber se matara el-rei a mando de conspiradores. Apesar de ele ter confessado que só quisera vingar a ofensa que o Pangeran lhe fizera ao dar-lhe um có na cabeça em público, os parentes de Trenggana prenderam e justiçaram também o senhor de Surabayaa, seu pai, com os outros três filhos e todos os seus parentes, acabando-lhe com a geração.
– Isto não vai ficar por aqui – avisa Taborda, preocupado, como bom conhecedor da terra e das suas gentes. – Patem Pandor tinha por aliados e vassalos muitos senhorios em toda a Java, assim como nas ilhas de Bali, Madura e Timor, pelo que correm rumores de que vai haver grandes alevantamentos contra o reino de Demaa.
– Agora que o Pangeran morreu, Hasanudin seguramente porá fim ao cerco para volver a Sunda – alvitra Rui de Moura. – Como genro de Trenggana, tem de se acautelar para não ser assassinado ou apanhado em nova guerra.
– E, se ele não quiser ir, teremos de lhe pedir que nos dê permissão de partir para Banten, a fim de apanharmos a monção. Feridos como estamos, de pouco lhe poderemos já servir nesta guerra.
– Não vos quero assustar – avisa-os Taborda –, mas conheço os panarucões e espero a todo o momento que nos caiam em cima com todas as suas forças, num último combate, aproveitando-se da confusão que reina no nosso arraial, primeiro com os castigos e agora com a discussão sobre se hão-de enterrar Trenggana em solo inimigo e idólatra ou transportar o corpo para Demaa e dar-lhe sepultura no seu jazigo. Como a viagem é longa, o corpo corre o risco de se corromper e de a sua alma se perder.
– O corpo não se corromperá se for metido dentro de uma arca cheia de cânfora e de cal, enterrada num grande junco cheio de terra.
– Como sabes isso? – perguntam várias vozes ao mesmo tempo.
– Trabalhei com embalsamadores na minha terra – retorque-lhes rindo, Rui de Moura. – Eu levo o Taborda, para me servir de língua, e vou aconselhar el-rei de Sunda a usar dessa manha, que é cousa segura, infalível para o corpo chegar ao seu destino incorrupto e sem cheiro.
Hasanudin, que tem grande confiança nos seus portugueses, graças à sua autoridade de general do campo e segundo no comando, depressa convence o conselho dos senhores de Demaa, ansiosos por saírem de Panarukan, de que o cristão não os enganava. Assim, podiam levantar o cerco e partir, logo que tratassem do transporte do Pangeran.
A arca com o corpo preparado do modo indicado pelo português – a quem os rajás deram dez mil cruzados de esmola, por alma do morto, deixando-o muito contente e aos companheiros muito invejosos – foi levada para o junco e metida dentro de um grande monte de terra. Hasanudin fez igualmente embarcar a artilharia, as munições e todo o fato que mandara recolher das tendas do imperador, um riquíssimo tesouro que ele não queria deixar para saque dos seus homens e ainda menos dos inimigos, pois, como era costume dos poderosos sultões de Java, também Trenggana partira para aquela conquista com magnificente estado e faustosa recâmara.
Apesar das precauções tomadas para que o levantamento do cerco se fizesse com segredo, silêncio e rapidez, pressentiram os sitiados de Panarukan que os seus inimigos desmanchavam o arraial e se aprestavam para partir. O moço sultão em pessoa decidiu fazer uma surtida com os quatro capitães e os amoucos vitoriosos do combate anterior, para lhes dar uma última lição.
O assalto ao campo fez uma verdadeira razia nos homens desprevenidos, ocupados a carregar as carretas ou no transporte de arcas, almofreixes, trouxas e emborilhos para o embarque nos navios. Meia hora mais tarde, os amoucos, cansados de matar, retiraram-se para a cidade, com poucas baixas, permitindo o embarque dos inimigos em retirada. Nos destroços do arraial jaziam milhares de mortos, jaus e estrangeiros, nobres e gente baixa, sem distinção.
Embarcado no junco que levava o corpo de Trenggana, o ulema Sunan Kudus que o aconselhara a fazer a jihad aos gentios de Panarukan, a fim de os converter à Lei de Mafamede, contemplava com grande perturbação os navios da armada incendiados pelos panarucões. Allah, por estranhos desígnios que o seu fiel servo não entenderia até à hora da sua morte, concedera uma vitória retumbante aos idólatras e uma pesadíssima derrota aos seus crentes que os queriam converter.
Como se não bastasse a mortandade causada pela desastrosa jihad contra Panarukan, após o enterro de Trenggana em Demaa, a revolta e o desejo de vingança dos aliados de Patem Pandor, pela indigna morte que lhe tinham dado e a todos os seus parentes, assim como a luta pela conquista do poder de oito pretendentes do trono, puseram o reino a ferro e fogo.