O ano passado foi daqui por mandado do capitão-mor Francisco Lampreia e Jorge de Pina a Pegu por embaixadores, e depois partiu daqui António Correia na [nau] Brandoa para Malaca e de lá havia d’ir a Pegu, onde foi e se acharam lá todos, donde vieram desavindos e mal aviados com a gente da terra, e assi [com] guzarates que lá estavam com suas naus. Dizem ser terra muito rica e abastada de todalas riquezas, ouro, almíscar, beijoim, rubis, outras e muitas cousas ricas, aos quais se não quis consentir na terra que se vendesse nada porque têm já sabido se tratarem com nosco que logo serão destruídos, e por este respeito se mostraram pobres e tiranos e de pouco gasalhado, depois que receberam [os portugueses].
É gente de pouco poder, e muita, por que lhe parecia que fazendo o que faziam que lhe não tornássemos lá mais; faça V. Alteza bom fundamento desta terra e aproveite-se cedo dela, antes que se dane com nosco, e de fazer fundamento de pousar gente nela e grandes defesas ainda que já lá vão fustas de João Moreno.
Malaca, 1520
Pêro de Faria dera-lhe a embaixada ao Martavão, de novo como recompensa dos serviços que ele lhe prestara em muitas ocasiões, porque ali teria ocasião de fazer bons tratos e restaurar as suas finanças. Além de assentar pazes com el-rei, deveria também concertar com Sua Alteza fretes regulares de mantimentos para prover a fortaleza de Malaca e, ao mesmo tempo, tratar do seu próprio negócio e proveito.
De caminho, procuraria descobrir o paradeiro da armada de Lançarote Guerreiro – um fidalgo corsário que andava com uma força de cem homens a assaltar barcos mouros no golfo de Bengala – e rogar-lhe que acudisse a Malaca, ameaçada pelo rei de Achem.
– Vamos dar-te todas as informações sobre a terra e os tratados que fizemos com os seus reis, pois necessitamos de renovar os concertos de pazes, visto os seus reis nunca o serem por muito tempo e nem todas as mudanças nos favorecem. Devemos seguir o exemplo de António Correia que conseguiu o melhor dos tratados graças a um poema!
– Um poema português?
Pêro de Faria soltara uma risada.
– Nem mais! Um poema de Luís da Silveira, o conde de Sortelha. Foi cousa muito falada.
– Mas como puderam entendê-lo?
– Não houve mister trasladá-lo! Foi assi.
António Correia chegara a Martavão, a vinte e sete de Setembro do ano de mil quinhentos e dezanove, para concertar pazes com o rei de Pegu por ordem do governador Diogo Lopes de Sequeira, seu tio. Não fora apenas o parentesco a razão da escolha, o enviado destacava-se pelas suas qualidades de capitão e homem notável, capaz de levar a bom termo uma missão. Dera provas da sua prudência quando não se arriscara a ir mais além do porto de Martavão por serem aquelas costas ainda pouco conhecidas dos portugueses, assaz perigosas, devido às numerosas ilhas e ao grande macaréu que tinham os rios dos seus principais portos.
O reino de Pegu, de que faziam parte o porto e terras do Martavão, gozava de uma situação privilegiada, no golfo de Bengala, desde o cabo de Negrais até ao de Tavai, limitado pelos reinos de Arracão, a norte, e Sião a sul. Tinha muita terra plana e fértil graças aos rios Irauadi e Saluém que a recortavam toda, dando-lhe a forma de uma imensa horta regada, ideal para o cultivo de arroz, além da criação de búfalos e outro gado; nas suas florestas dava-se o lacre, caçavam-se os melhores elefantes de trabalho ou de guerra, as suas minas regurgitavam de prata e pedras preciosas, como os sanguíneos rubis.
– Se tudo correr bem, poderemos carregar a nau e os dois juncos com mantimentos de que Malaca está tão precisada – disse para os seus oficiais.
Era a principal razão da sua vinda. O rei de Bintão não desistia de reconquistar Malaca, de onde havia sido expulso por Afonso de Albuquerque; sediado em Pago, que fortificara e armara, mantinha a cidade cercada, por terra e por mar, não permitindo a entrada no porto de qualquer barco que levasse mantimentos ou mercadorias e mandava a sua gente armada fazer constantes assaltos à fortaleza dos portugueses. Quando, dois meses antes, António Correia lá chegara com a sua nau carregada de mantimentos, dera uma ajuda providencial aos sitiados que, famintos e doentes, não ousavam sair do forte para enfrentarem num corpo a corpo um inimigo muito mais numeroso e bem alimentado.
Durante esses dois meses não deixara os seus créditos em mãos alheias e estivera metido nas tranqueiras, fora da fortaleza, comandando os seus arcabuzeiros e besteiros, com algumas peças de artilharia, a conter os assaltos dos sitiadores, comendo e dormindo armado, sem repouso do corpo ou da alma, matando muitos dos assaltantes, sem sofrer perdas dos seus homens. Os inimigos, desencorajados pela sua feroz defesa, tinham afastado o arraial para mais longe e só de tempos a tempos se atreviam a fazer correrias em terra.