Embora não falassem a mesma língua, os pegus diziam que os siames descendiam da sua linhagem, o que não era de estranhar porque usavam do mesmo modo, metidos no instrumento da sua geração entre a carne e a pele, de um até cinco, ou mesmo nove, cascavéis do tamanho de ameixas alvares – os dos fidalgos de ouro ou prata, os da gente baixa de chumbo e fuzileira –, fazendo alegre som por onde quer que fossem, de maviosos tons de tiple, contralto e tenor, os preciosos, mais roufenhos e desafinados os de ouropel e fancaria, um uso que António Correia jamais vira a outro povo das Índias. Derivava este costume, segundo a lenda da sua criação, do ajuntamento de uma mulher com um cão, cuja prole povoara aquela terra que até então fora erma. A mulher e o perro haviam sido os únicos sobreviventes de um junco da China atirado por uma tormenta para aquelas costas e destruído; a mulher tivera então cópula com o cão e parira filhos que depois copularam com ela, gerando novos rebentos que se multiplicaram de contínuo, propagando-se depois pelas terras do Sião.
Os pegus usavam os guizos em memória do cão mítico e a razão das suas mulheres serem mais bem-parecidas do que os homens, segundo elas próprias diziam, devia-se às fêmeas terem saído à primeira mãe e os machos ao perro, o pai primordial. Em Malaca, António Correia preparara-se bem para a sua missão, informando-se dos costumes destes gentios com os malaios e judeus, que lhe tinham contado muitas histórias fantasiosas como a do coito da mulher com o bicho e outras mais credíveis como Pegu e Arracão terem sido povoados por degredados, cujas autoridades impuseram o uso de cascavéis como castigo pelo pecado da sodomia que cometiam.
Sabia igualmente que teria de vencer a desconfiança que os povos daquela região nutriam pelos portugueses, como certeiramente apontara António Pessanha, porque os seus reis já haviam sido vítimas dos ardis, sobretudo quando os feringhis conseguiram terras para nelas construírem as suas feitorias. Correia conhecia bem o modo como os capitães alevantados se tinham socorrido da história fabulosa da fundação de Cartago pela rainha Dido, ao pedirem um pedaço de terra do tamanho de uma pele, para nela se estabelecerem. Haviam-no feito em Pegu e Sião, de modo que por aquelas paragens quando se referiam aos cristãos diziam que pertenciam à aldeia da pele que se estende.
190 Capitães do porto ou oficiais responsáveis pelos visitantes estrangeiros de diferentes nações.
191 Franges, europeus, sobretudo portugueses.
II
Elefantes iguais podem enganar
(tâmil)
O estrangeiro recém-chegado disse:
– Nós gostaríamos de nos estabelecer aqui para fazer tratos.
Ao que o rei de Pegu respondeu:
– Eu tenho muitos inimigos. Os Shans atacam-nos constantemente. Se combaterdes ao nosso lado, para derrotar o inimigo, eu darei permissão para vos estabelecerdes aqui.
[Quando os Shans atacaram Pegu, os portugueses rechaçaram-nos com as suas armas e artilharia, fazendo o inimigo bater em retirada].
Então, o capitão português fez um pedido a el-rei:
– Dai-nos apenas um pedaço de terra que uma pele de búfalo possa abarcar que com ela nos satisfaremos.
O rei de Pegu deu-lhes a pele e a permissão para tomarem o terreno que pediam. O capitão mandou cortar a pele em tiras finíssimas [e ligá-las umas às outras como uma corda], de modo a poder cercar um extenso território no Sirião.
– As casas que ficam no terreno circundado pela corda têm de ser desmanteladas e transferidas – ordenou aos moradores. – Este lugar pertence ao território que el-rei nos concedeu.
Os desalojados bradaram contra a expulsão:
– Os Portugueses prometeram tomar um terreno do tamanho de uma pele de búfalo, mas cortando-a em tiras finas tomaram muitas terras!
O rei de Pegu respondeu-lhes:
– Nós prometemos dar aos Portugueses um pedaço de terra medida pela pele de um búfalo. Eles procederam com sabedoria, não há nada a dizer da sua conduta. Estes homens ajudaram os nossos guerreiros a combater o inimigo e concertámos com eles uma paz duradoura. Deixemos que se estabeleçam. Assim se construiu nesse território uma cidade portuguesa.
(Da crónica bramaa Potugui Yazawin192)
António Correia fizera tudo para que o tratado fosse assinado e o seu esforço fora recompensado: el-rei acedera a concertar as pazes com os portugueses. Pessanha regressara, cheio de empáfia, transportado num castelo de elefante, trazendo consigo dois representantes reais, o rolim-mor, cabeça dos seus religiosos, e o Cemim Bolegão.
As reuniões com os delegados correram sem incidentes e em boa harmonia, os capítulos do acordo foram redigidos a contento de ambas as partes e o tratado ia ser finalmente assinado em cerimónia soleníssima no templo da cidade que se enchera de gente. Martavão estava em festa e, como os seus artífices eram muito bons construtores de paraus e juncos, fizeram-se grandes corridas no rio, com barcos a remos, todos pintados e enfeitados, para grande comprazimento dos portugueses.