Despedira-se de Paulo Seixas, dando-lhe como recompensa as jóias que trazia e mandando embarcar na capitânia a esposa talaing e os dois filhos do capitão, que esperavam por ele junto da família real. Seixas continuou, todavia, com a sua frota a defender a cidade que, assim protegida, não podia ser entrada.
Um comandante talaing, natural da cidade de Pegu, mais conhecedor das batalhas marítimas do que Tabinshwethi, subiu o rio e fez inúmeras jangadas de bambu de duas espécies: umas com torres de madeira, montadas sobre cadafalsos, mais altas do que as muralhas da cidade, cheias de soldados, e outras carregadas de palha e madeiros a que lançou fogo e, aproveitando a corrente, fez deslizar rio abaixo com chamas altíssimas para embaterem nos navios e abrasá-los.
Seixas não tinha suficientes batéis nem homens para irem desviar as jangadas de fogo, por isso deu sinal de retirada e a capitânia com os dois navios mais afastados de terra procuraram a salvação na fuga para o alto mar, escapando incólumes, enquanto os quatro juncos restantes eram consumidos pelo fogo ou tomados pelos soldados das jangadas das torres que já podiam chegar às muralhas, permitindo o assalto dos bramaas à cidade.
Abandonado à sua sorte pela maioria das suas gentes, o senhor de Martavão hasteara uma bandeira branca no baluarte da muralha e enviara uma carta ao invasor que lhe respondera com juramentos de lhe dar um estado para governar com muitas terras e rendas.
Tabinshwethi rejubilava com a queda do último reduto do reino de Pegu, que ainda estava fora do seu jugo, conseguida após sete meses de grandes trabalhos e pesadas perdas, esperando saciar a sua vingança nos vencidos. Trouxera para junto das muralhas a sua estância de oitenta e seis magníficas tendas de campo, o arraial soara com o estrépito das hostes de elefantes de guerra e do alardo dos milhares de cavaleiros, gente a pé e estrangeiros, todos com seus capitães, segundo a ordem das suas capitanias. Bayin-naung, o mestre de campo, dispôs o corpo dos setecentos portugueses diante da porta da cidade por onde iria sair Chaubainhaa.
Os olhos perdem-se num mar de gente, sem horizonte à vista, colorido pelo arco-íris das bandeiras, guiões, gualdrapas e cobertas dos elefantes e cavalos, com miríades de cintilações de prata e ouro arrancadas aos ricos jaezes, às lâminas e punhos das armas. As armaduras dos estrangeiros contrastam com os corpos quase nus dos bramaas de longos cabelos negros, cujos trajos de guerra são as tatuagens sagradas, gravadas a tinta azul com ferro quente, a cobrir-lhes todo o corpo, dos ombros aos joelhos, para os fazer invencíveis.
A fanfarra de incontáveis instrumentos é ensurdecedora e desencoraja qualquer conversação. O tiro de bombarda anuncia a abertura das portas da cidade por onde sai o corpo da guarda, de alguns milhares de homens, com trezentos elefantes, que o vencedor enviara na véspera para escoltar a família real, seguidos por bramaas nobres que os vieram receber. Após eles, surge el-rei com o rolim-mor que serve de intermediário aos dois soberanos e, em três palanquins, os quatro filhos de Chaubainhaa e a esposa, irmã mais nova do rei de Pegu deposto por Tabinshwethi pouco tempo antes. As liteiras vêm no meio de quarenta moças, filhas dos fidalgos do Martavão, com os rostos desfeitos em lágrimas, rodeadas por um cordão de sacerdotes descalços, com as cabeças rapadas, a rezarem e a consolarem o triste rebanho. Fecham o cortejo dos vencidos, algumas companhias de arcabuzeiros, alabardeiros, piqueiros e, por último, um batalhão de cavaleiros.
Chaubainhaa traz vestida uma cabaia comprida de veludo preto e tem os cabelos, as barbas e as sobrancelhas rapados; com um baraço ao pescoço, monta um pequeno elefante sem atavios, em sinal de pobreza e humildade, como quem já despreza os bens deste mundo e está prestes a meter-se num convento. Esta humilhação pública da família real causa uma dor tão profunda nas gentes do Martavão, aglomeradas às portas da cidade, que as mulheres soltam grandes gritos, dão bofetadas no próprio rosto e ferem-se com pedras na cabeça.
A rainha, com a comoção que lhe causa o pranto do povo, sofre um vagado e tomba desacordada nos braços das aias que choram e pedem clemência. Ao ouvir os gritos das mulheres, Chaubainhaa desce à pressa do elefante para socorrer a esposa e sossegar os filhos que a abraçam soluçando.
– Oh, deuses inclementes! – exclama amargurado. – Porque castigais estes inocentes que nunca pecaram! É esta a vossa divina justiça?
– A rainha morreu! – bradam na assistência os que se acham mais perto da cena. – Nhay Canatoo acaba de morrer!
O coro de gritos e lamentações da multidão propaga-se como um rastilho aceso e as mulheres fazem o seu luto arrancando os cabelos às mancheias ou rasgando o rosto com as unhas.