Os batedores de Bayin-naung foram os primeiros a descobrir as forças dos talaing, que lhes cortavam o caminho do outro lado do rio, a algumas milhas de distância de Prome. Um murmúrio de revolta e de medo percorreu as fileiras do exército ao verem que o adversário era em muito maior número.
Sabendo como os homens estavam exaustos das campanhas anteriores e fartos da crueldade de Tabinshwethi, o general temeu a deserção em massa dos seus homens e tratou de os ocupar com o corte das árvores e a construção das jangadas para atravessarem o rio, mantendo-os sob apertada vigilância, castigando a menor falta ou sinal de fraqueza.
A mensagem do cunhado chegou quando já quase todo o exército tinha passado para a outra margem. O rei de Bramaa ordenava-lhe que, se encontrasse o inimigo, não atacasse e esperasse por ele. Bayin-naung pensou que o nervosismo da espera acabaria por destruir o pouco ânimo das tropas e ele teria ainda mais dificuldades em suster a debandada no momento do ataque. Chamou um jovem oficial, seu parente, e enviou-o a Tabinshwethi com a informação de que já tinha travado combate e vencido o inimigo.
– Anunciaste uma vitória, antes sequer de termos começado a batalha – disse-lhe o seu lugar-tenente, estarrecido, embora sabendo que o general era muito estimado pelo rei, por ser filho da sua velha ama, seu companheiro de infância e de todas as campanhas, além de marido da sua irmã. – Temos tudo a nosso desfavor e a derrota quase certa. Imaginas o castigo que nos dará el-rei?
– Se perdermos é porque morremos aqui. E ninguém pode punir os mortos – respondeu Bayin-naung e, vendo que já todos haviam atravessado o rio, deu ordem para destruírem as jangadas.
Ouviu-se um murmúrio angustiado dos homens que o lugar-tenente pôs em palavras:
– Os inimigos são dez para um. Sem as jangadas ninguém logrará sair vivo daqui.
– Sem dúvida – retorquiu o general, acrescentando em alta voz para os homens: – Amigos, agora temos de vencer!
Sem possibilidade de fuga, os seus homens lançaram-se num combate de morte, fazendo fugir os adversários que foram acolher-se dentro das muralhas de Prome. Como alguns anos antes, Tabinshwethi tinha tentado conquistar esta cidade e falhado, para vencer, desta vez, Bayin-naung resolveu recorrer à astúcia e à armada dos alevantados portugueses sob o comando de João Caeiro, com os seus arcabuzes e artilharia ligeira em que eram invencíveis.
Quando as tribos do Norte, chefiadas pelo sawbwa de Avaa, desceram pelo rio como um enxame de abelhas de ferrões aguçados em socorro dos sitiados, Bayin-naung avançou com o seu exército um dia de marcha para norte e confiou a sorte da batalha aos arcabuzeiros portugueses que as derrotaram numa emboscada, pondo-as em fuga.
Ao mesmo tempo, o general forjou uma carta em nome do rei de Prome que mandou entregar às tropas de Arracão, que vinham por terra através de uma passagem nas montanhas, levando-os a cair noutra emboscada, vencendo-os e forçando-os à retirada. A frota de socorro que avançava pela costa, quando soube da derrota da infantaria, também regressou à sua terra.
Diante de todo o exército reunido, Tabinshwethi tirou os preciosos anéis dos seus dedos para os oferecer a Bayin-naung, em reconhecimento de tão magníficas vitórias, mandando entregar-lhe três camadas de almofadas para nelas se reclinar, como convinha ao seu alto estado e novo título de Ainshêmeng ou Príncipe Coroado.
Cinco meses durou o cerco à cidade de Prome, defendida pela rainha regente, uma mulher moça e de ânimo varonil, mãe do rei de treze anos. Assolados pela fome e doença, os sitiados foram desertando às centenas e, por fim, alguns traidores peitados por Tabinshwethi abriram os portões da cidade, deixando-a à mercê do impaciente tirano e da sua soldadesca que a saquearam sem piedade.
Da varanda do palácio o rei de Bramaa podia contemplar a praça onde fora supliciada a gente nobre que não tinha desertado, fiel ao rei e à sua mãe. Estava repleta de soldados que festejavam a vitória e ele ordenou-lhes que trouxessem os corpos das duas mil crianças mortas durante o saque, os cortassem em pedaços e os dessem a comer aos elefantes de combate que berravam de fome.
À semelhança do que fizera no Martavão, o tirano exerceu as maiores sevícias sobre as donas e donzelas da corte, antes de lhes dar cruel morte. Eram vítimas de escol para saciar a sua vingança, mas nenhuma como a rainha lhe dera esse particular gozo em humilhar e causar dor a uma mulher, porque esta filha do rei de Avaa o desprezara em tempos, tal como havia feito a do Martavão, preterindo-o a favor de outros reis, por ele não ser então um príncipe de grande estado. Sentiu na alma o mesmo vexame de outrora, à vista da sua beleza, do seu ar altivo, apesar de a terem lançado a seus pés, vencida e à sua mercê.