El-rei pede água, esparge o rosto da esposa para a fazer recobrar ânimo e, quando ela abre os olhos, ajuda-a a erguer-se com palavras de carinho e de esperança. Alçado de novo para o lombo do elefante, o cortejo retoma o andamento, para ser de novo interrompido alguns passos mais à frente, quando el-rei quase perde o juízo ao passar diante dos portugueses, perfilados em muito boa ordem. Chaubainhaa pára o elefante, ao ver João Caeiro, gritando-lhe bem alto para que a multidão o ouça:
– Portugueses fementidos, que pagastes com traição o bem que sempre vos fiz! Tenho esta minha rendição por menos dor e afronta do que ver diante de meus olhos gente tão ingrata como vós. – E, virando a cabeça para trás para mostrar como a sua vista lhe causava asco, roga: – Ou me matem aqui já ou os tirem dali, porque não hei-de passar mais adiante!
Esconde o rosto no cachaço do animal e o capitão da guarda chama João Caeiro e grita-lhe do alto do seu elefante:
– Despeja já o caminho, porque não é lícito que gente tão má como vós trilhe a terra que possa dar fruto. Que os deuses perdoem a quem meteu na cabeça a el-rei que podíeis prestar para alguma cousa. Rapai as barbas, para que se não engane a gente convosco e servir-nos-eis de mulheres por nosso dinheiro.
Os bramaas da guarda expulsam os setecentos portugueses do alardo, para sua grande vergonha e humilhação, el-rei prossegue no seu elefante até à estância das tendas onde o espera, com pompa e alto estado, o seu conquistador a cujos pés se humilha, pedindo clemência para a esposa e os filhos.
Depois da rendição, Tabinshwethi manteve as portas da cidade cerradas e guardadas por bramaas fiéis, para arrecadar o tesouro dos reis do Martavão, antes de permitir aos seus homens e aliados o saque à escala franca, conforme lhes prometera. Quando por fim soa o tiro de bombarda, dando sinal para a pilhagem, uma multidão aguilhoada pela espera e a cobiça do roubo, lança-se contra as portas da cidade como um enxame de gafanhotos famintos, entupindo as entradas, empurrando-se, esmagando-se e espezinhando os que caem, para serem os primeiros a deitar a mão às riquezas.
O saque durou três dias, num cenário de cruel mortandade, sendo superior a tudo o que até então os bramaas tinham ganho nas suas conquistas: relicários, objectos de culto e ídolos de ouro, prata e pedraria dos templos; caixotes com as peças de seda e porcelanas da China; martabanas cheias de pimenta e drogas, achadas nos gudões e casas dos mercadores de muitas nações. Por ordem do conquistador, as varelas mais santas, as casas do rei, dos nobres e da gente mais rica foram arrasadas e queimadas, assim como as dos pobres, até nada restar da bela e rica Martavão.
Após o saque, o tirano mandou erguer dezenas de cadafalsos no alto de uma colina, que se podia ver da cidade. Uma procissão, semelhante a um saimento, sobe o outeiro com monges de muitas seitas, esquadrões de soldados a pé com os seus comandantes, os principais cavaleiros bramaas e os elefantes de guerra escoltam a rainha Nhay Canatoo com os quatro filhinhos e, presas a quatro e quatro, as suas cento e quarenta aias – todas esposas e filhas da gente principal do reino. Tabinshwethi faltara ao juramento que dera a Chaubainhaa e mandava executar aquela crueldade por vingança e pela má inclinação que sempre teve contra as mulheres.
No recinto da forca, arautos a cavalo lêem o pregão para uma assistência silenciosa:
– Ouçam e vejam as gentes do mundo a criminosa justiça que manda fazer o deus vivo, Senhor da Verdade, rei soberano das nossas cabeças, que quer e lhe praz que morram todas estas cento e quarenta mulheres entregues ao elemento do ar, porque este seu conselho, seus maridos e pais se levantaram com esta cidade e mataram nela doze mil bramaas do reino de Tungoo.
– São todas moças e tão formosas. Que lástima!
– Como pode, o tirano? – indigna-se Fernão. – Pardeus! Muitas delas são quase crianças, podiam lá conspirar contra el-rei dos bramaas!
Na forca mais alta serão penduradas pelos pés, para sofrerem o martírio de uma longa agonia, a rainha e as quarenta açafatas do seu séquito, filhas dos mais nobres fidalgos do reino; a seu lado, há uma forca mais pequena para o mesmo suplício dos dois príncipes e das duas princesas, crianças de poucos anos, a cuja vista os cativos sobreviventes de Martavão soltam os mais sentidos prantos, esquecidos da sua própria miséria. As outras vinte forcas estão destinadas às cem donas e donzelas restantes.
Vendo a rainha encostada a uma aia, como morta, uma formosa moça brada-lhe de entre o primeiro grupo que os algozes conduzem ao patíbulo:
– Senhora, já que por tuas cativas nos embarcamos contigo nestas tristes casas da morte, consola-nos com a vista da tua presença, para que partamos com menos dor.
– Não vos partais já, irmãs minhas! – roga Nhay Canatoo, às que lhe estão mais próximas. – Ajudai-me a levar os meus filhinhos.