Chaubainhaa, para maior castigo, é forçado a assistir à execução antes de lhe ser dada a morte por afogamento, pois nem mesmo o tirano bramaa ousava desafiar a lei e as suas divindades com o derramamento de sangue real; o senhor de Martavão é lançado vivo ao rio, com uma pedra ao pescoço, acompanhado pelos fidalgos que lhe eram leais.
Com a conquista de Martavão, Tabinshwethi satisfizera a sua vingança e alcançara o domínio absoluto do vasto reino de Pegu. Estabeleceu postos militares em lugares estratégicos na região para vigiar os seus inimigos, sobretudo o reino do Sião, e deixando como governador Sa-kyay, o seu mordomo-mor, partira para a capital Pegu a fim de festejar o seu triunfo.
Nessa mesma noite, Fernão vê-se rodeado por soldados bramaas que vêm prendê-lo com pregão de traidor, pela carta que ele trouxera do capitão de Malaca para Chaubainhaa, a oferecer-lhe socorro contra o rei tungoo. Com amargura, enquanto é conduzido ao tronco para enfrentar a pena de morte dada aos traidores, o prisioneiro descobre que foi denunciado a Sa-kyay por um português amigo de Pêro de Faria, a quem o capitão recomendara numa missiva que ajudasse o seu embaixador em caso de necessidade.
Não só sofre de novo as agruras da prisão, como mais uma vez se vê espoliado de todos os seus bens pela ganância do governador que se apodera dos juncos e das fazendas, depois de ter condenado à morte e justiçado o Nakoda Mahmmude e as suas equipagens de chins e malaios. Fernão não duvida de que o aguarda o mesmo destino, porque Sa-kyay não o pode deixar vivo para testemunhar o roubo que fez, às escondidas de Tabinshwethi.
Como teria de justificar perante el-rei a morte do estrangeiro, o governador forjara uns libelos cheios de falsas acusações de traição. Procura arrancar-lhe a confissão pública dos mesmos, com perguntas feitas durante terríveis tratos que lhe mandava dar na picota, de muitos açoites e pingos de fogo com canudos de lacre. Sabendo que a morte é certa, Fernão brada, por entre gritos lancinantes de dor, à multidão que assiste ao seu tormento:
– Acusam-me falsamente para me roubarem a fazenda. O capitão João Caeiro, que está em Pegu, o há-de dizer a el-rei para que castigue os culpados.
Ao ouvi-lo Sa-kyay empalidece de medo, porque se Tabinshwethi vier a saber que ele matara o português para lhe tomar os cem mil cruzados que o capitão de Malaca enviara a Chaubainhaa, pedir-lhe-á contas desse dinheiro e, mesmo que lho entregue todo, ganancioso como é o tirano, há-de exigir-lhe muito mais, causando a sua ruína e a desgraça da sua família.
A sentença de morte é revogada, sendo o réu condenado ao confisco de toda a sua fazenda e enviado para Pegu, em ferros, como cativo d’el-rei.
V
Escapar ao tigre para ser comido pelo crocodilo
(siamês)
Há também costumes tais
em Pegu, que homens competem,
a qual deles terá mais
em seus membros genitais
cascavéis, onde os metem,
a sua carne cortando;
e por tempo se soldando
ficam dentro entremetidos:
dizem que são mais queridos
das fêmeas assi usando.
E moças vão prometer
a ídolos virgindade,
e se vão oferecer,
e por si mesmas corromper
em sinal de castidade,
em umas lájeas polidas,
muito limpas, mui luzidas,
em um corno mui polido,
que no meio está metido,
se rompem nele subidas.
(Miscellanea, de Garcia de Resende)
Tabinshwethi queria aproveitar a sua boa fortuna para acometer e conquistar o reino de Avaa aos shans, mas para isso teria de tomar a cidade de Prome, que estava bem fortificada e defendida por bombardas e tranqueiras. A sua estratégia seria a mesma que usara no Martavão, montando-lhe apertado cerco para a render pela fome.
Sem permitir aos soldados que voltassem para as suas terras, preparou o seu exército repartindo-o em dois corpos, indo com o mais numeroso pelo rio Irãwadi acima, na sua armada de seroos, os navios de guerra em forma de animais, cujas proas eram cabeças de cavalos, patos, crocodilos, elefantes, dragões e tubarões, assim como incontáveis tee-lees, as demolidoras embarcações de madeira de teca, rasas, movidas a remos curtos por mais de cinquenta remadores, com proas muito fortes onde ia montado um pilão, semelhante a uma mão de almofariz, seguro por fortes correias. O som vibrante dos tambores marcava o compasso dos remos e o ritmo das canções de guerra entoadas por milhares de homens. Por terra, ao longo da margem oriental do rio, seguia o comandante-mor Bayin-naung com o segundo troço do exército e os elefantes de guerra.
O rei de Prome estava sujeito ao rei de Avaa, com cuja filha casara e a quem pagava tributos. Tendo conhecimento das manobras de Tabinshwethi, o sogro veio com os chefes shans das tribos do Norte em socorro do genro. Também o rei de Arracão, que temia e odiava o desapiedado conquistador tungoo, se apressara a responder ao pedido de socorro feito pela irmã do seu aliado de Prome, enviara-lhe uma frota pelo rio e um batalhão por uma passagem das montanhas, de modo a apanhar o inimigo entre dois fogos.