Todavia hesita e não se decide a sair do Sião, abandonando o seu leitor a contas com os fios ainda por atar desta meada de intrigas e a perguntar-se, sentindo-se logrado: Que sucedeu a Phiren, Thien e Suriyothay? E Tabinshwethi, o Tigre Adormecido, terá desistido da sua cobiçada Ayuthya?.
Falta à narradora coragem para o deixar sozinho em tal aperto, preferindo pecar por excesso do que por penúria. Retomará, então, no próximo capítulo as pontas soltas de tantas vidas cruzadas, segundo o conselho do primeiro narrador destas histórias, que avisava os seus leitores: E deixando também à parte tudo o que mais sucedeu neste reino Siame, direi somente o em que pararam estas cousas todas, que aos curiosos cuido que não deixará de dar gosto.
200 Poema épico siamês, tradução livre do inglês pela autora.
X
Confundir lâminas com lótus
(Sião)
Vede fazer amor a três
o que superiormente reinou:
braços apresando a carne, o corpo tenso
para estreitar e admirar,
desejar, gozar, entreabrir os lábios
para saborear mil gostos
de celestial hidromel
– como um só par, assim
em ardente e bravio abraço.
(Excerto de um poema épico thai, anónimo)
Os corpos do brâmane Boon Sri, da concubina Sri Suda Chan e da filha da sua traição foram decapitados, empalados e abandonados na floresta para repasto das feras. As três cabeças foram levadas para a corte, espetadas em estacas e exibidas ao povo como troféus. Os olhos de Sri Suda Chan, que outrora enfeitiçavam os homens, olharam sem ver o espectáculo que em vida tanto temera – o cortejo triunfal da coroação do príncipe Thien e de Suriyothay, a sua odiada rival.
Como prémio da sua acção na conjura, Khun Phiren foi nomeado Segundo Rei e recebeu por esposa a princesa Sawatdirat, que por estranha coincidência era a viva imagem da rainha sua mãe, aos quinze anos de idade, e, tal como ela, se rendera à coragem e nobreza viril do comandante.
Todavia, fosse por razões históricas, graças a mero acaso ou por força da maldição da concubina, Suriyothay não viveu muito tempo para gozar o fruto das suas próprias intrigas e jogos de poder. Nesse mesmo ano do Galo, de mil quinhentos e quarenta e nove, Tabinshwethi, sempre de olho cobiçoso na nação vizinha, aproveitou-se das suas lutas para a invadir, cercando Ayuthya com trezentos mil homens, três mil cavaleiros estrangeiros e setecentos elefantes.
Na batalha decisiva pela salvação da cidade e do reino, a vitória inclinava-se para o rei de Bramaa, graças a uma força de mais de mil portugueses, comandados por Diogo Soares de Albergaria, o Galego, e a um monstruoso basilisco, a maior peça de artilharia jamais vista naqueles reinos. Suriyothay e a sua filha mais velha, sentindo a derrota iminente, armaram-se com o elmo, a couraça e a alabarda dos príncipes e saíram a campo, com todas as mulheres da sua casa que sabiam lutar, em socorro dos seus homens. Montadas em elefantes de guerra, avançaram para o local onde a batalha era mais acesa e o rei Thien, coberto de sangue e quase sem forças, lutava contra o senhor de Prome, aliado de Tabinshwethi.
O elefante de Thien tombou mortalmente ferido, arrastando-o na queda e Suriyothay viu como o adversário carregava sobre ele para lhe dar o golpe de misericórdia. Sem hesitar, fez o seu elefante avançar e atacou o general inimigo, que julgou ter diante de si um Uparat, o Príncipe Coroado ou Segundo Rei, que devia ser muito jovem porque lutava com denodo e coragem, mas sem experiência de combate. O senhor de Prome ripostou com ímpeto, ansioso por reclamar a sua morte e não lhe foi difícil apanhá-lo com um golpe traiçoeiro de alabarda que o cortou do pescoço até ao peito.
Quase ao mesmo tempo, uma lança atravessou o coração da princesa, que acorrera em socorro da mãe e ambas tombaram em simultâneo dos dorsos dos seus elefantes. Por fim, liberto do animal morto, Thien lançou-se com um grito de paixão sobre o agressor e cravou-lhe a lança na garganta.
A morte de Suriyothay e da princesa inspirou tamanho desejo de vingança nos siames que se lançaram com fúria cega sobre os bramaas e pegus, rechaçando-nos com pesadíssimas baixas. Tabinshwethi, temendo os reforços de Khun Phiren, levantou o cerco, trocando uma retirada segura e dois elefantes sagrados, pelo filho mais velho e o genro de Thien que tomara como reféns.
Não demorou muito a satisfação do tirano bramaa pela posse dos elefantes brancos, porque ninguém nas suas hostes sabia dominar e conduzir as divinas alimárias, de modo que a confusão e os danos causados ao exército em retirada foram mais nefastos do que os sofridos às mãos dos seus adversários. Tabinshwethi não teve outro remédio senão devolver os elefantes e voltar para a sua terra de mãos a abanar.