A Divina Providência ou a persecutória Fortuna pusera mais uma vez Fernão Mendes Pinto no centro da guerra, no Sião. Ali fora de passagem para comprar mercadorias e afinal mercara sarilhos, sendo de novo arrolado nas forças portuguesas de Domingos de Seixas, durante os quatro meses que durou o cerco. O valoroso capitão do Ban Portuguet, o campo português de Ayuthya, nunca recebeu o reconhecimento d’el-rei de Portugal pelos muitos serviços prestados, vindo a morrer como um indigente no hospital dos Pobres em Lisboa.

Por ambos se soube dos sucessos destes conturbados anos e como o destino de Tabinshwethi continuou ligado aos feringhis portugueses, para bem e para mal de seus pecados.

Depois das campanhas do Sião, tendo anexado e unificado os reinos da Birmânia, aos trinta e cinco anos de idade, o tirano estabeleceu com grande fausto a sua corte em Pegu. Mantinha a hoste de guerreiros portugueses, pagos com muito ouro, cujo comandante Diogo Soares, o Galego, era um dos mais poderosos senhores do reino.

Um sobrinho de Soares, tão aventureiro e desprovido de escrúpulos como o tio, homiziou-se e veio pedir-lhe protecção. Fora enviado de Malaca por capitão de uma frota de sete navios, numa expedição punitiva contra o sultão de Achem, porém, tendo sofrido pesada derrota, Álvaro Soares fugira com trezentos homens nos juncos que escaparam aos inimigos e, para não prestar contas do desaire ao capitão da fortaleza, refugiara-se em Martavão, cujo senhor em vez de o acolher no seu exército o mandara sob prisão para a corte de Pegu, onde o tio lhe conseguiu sem custo a libertação e o favor de Tabinshwethi.

Mancebo de muito bom corpo, belo rosto e agradáveis modos, para mais bom cavaleiro e melhor caçador, não tardou a conquistar as boas graças do tirano, adestrando-o na caça com as suas novas armas de fogo, tornando-se no seu favorito e companheiro em todos os prazeres e desenfadamentos. Para mais o favorecer, Tabinshwethi casou-o com uma formosa açafata da casa real e, em retorno, Álvaro ensinava a esposa a cozinhar comidas portuguesas para Sua Alteza degustar e fazia-lhe vinho de uvas e aguardente de frutos com mel, que ele desconhecia e o deliciavam.

O português era presença indispensável junto do trono, para lhe servir os vinhos, que ele bebia sem cessar. Tabinshwethi deixou de atender aos negócios do reino, para viver num estado de permanente embriaguez e grande devassidão, interessado somente em satisfazer a sua luxúria, exacerbada pelo vinho, a que não escapavam as mulheres e filhas dos seus vassalos. Eram famosas as suas orgias com gente licenciosa como Diogo Soares, que não hesitara em raptar uma formosa noiva gentia no dia do seu casamento, matando-lhe o esposo e os parentes que a defendiam, para cevar os seus instintos; a moça enforcara-se para não ser desonrada pelo algoz e a sua história causara grande indignação no reino.

Atento à onda de descontentamento do povo e dos nobres, Bayin-naung decidiu intervir.

– Abusas das mulheres e filhas dos teus vassalos, a tua conduta é imprópria de um rei! – censurou-o num tom severo, embora respeitoso, para não incorrer na sua ira. – Dás ouvidos a intriguistas e aduladores, premiando os falsos e enviando para a morte homens inocentes que te são leais.

Tabinshwethi retorquiu-lhe, com um riso de ébrio:

– Amo a bebida, meu irmão, estou cansado de governar e de combater. Deixa-me fruir os meus prazeres e não me importunes mais com petições. A partir de agora cuidarás por mim dos negócios do reino.

Deixou de aparecer em público, recusando-se até a atender aos alardos do seu exército, tarefa que outrora o enchia de alegria e orgulho. Bayin-naung, que ele designara por herdeiro, governava em seu lugar e, se ele mandava executar gente inocente, ouvia os queixosos e não cumpria as suas ordens. Os principais senhores bramaas, shans e talaings vinham sondá-lo, rogando-lhe que tomasse o trono e exercesse de pleno direito aquilo que fazia por generosidade e justiça, ao contrário d’el-rei que tinha perdido o tino sob o poder do seu valido português.

Bayin-naung, que era leal ao cunhado e o amava como a um irmão mais novo, temendo que os sawbwas conspirassem contra ele e o fizessem assassinar, escolheu para sua protecção uma guarda dos seus melhores oficiais, ao mesmo tempo que procurava apaziguar os ministros:

– Irmãos, devemos lealdade e gratidão a el-rei. Não falemos mais de semelhante assunto, nem o digais a outrem que é traição! Compete-nos aconselhar Sua Majestade e servi-lo bem. Tabinshwethi pode ter cometido alguma falta numa vida anterior, por isso, a sua mente está enferma e ele delira – olhou-os com expressão tranquila e concluiu sorrindo –, mas o reino não há-de perecer, se nós nos mantivermos vigilantes e o defendermos. Voltai sossegados para os vossos feudos.

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