Alarmado com os primeiros fogos de revolta, o regente tomou providências com rapidez e em segredo, para que o cunhado não pudesse impedi-lo, pagando ao favorito português uma grossa quantia em ouro, acompanhada de uma velada ameaça se não fosse obedecido, e expulsou-o do reino. Contudo, a embriaguez de Tabinshwethi e o seu desatino agravaram-se a tal ponto que o cunhado determinou afastá-lo da corte, para melhor o proteger, aposentando-o com grande estado num palácio, com um belo bosque onde poderia caçar, nos domínios do sawbwa de Sittaung, a cuja protecção o entregou.

Mau grado os seus esforços, não conseguiu estancar os ódios e as conspirações. Os talaings revoltaram-se, por serem forçados a servir durante anos nas intermináveis guerras de Tabinshwethi, conjurando para pôr no trono um nobre monge que foram buscar ao seu mosteiro para chefiar o levantamento. Bayin-naung acudiu a dominar a revolta, sendo a sua ausência aproveitada pelo sawbwa de Sittaung (que pertencia ao mesmo clã dos revoltosos e, farto da tirania e dos desmandos do rei bêbado, se deixara aliciar pelos conspiradores) para perpetrar o regicídio.

Conhecendo o quanto Tabinshwethi sempre desejara possuir um elefante branco, chegando mesmo a provocar uma guerra para conquistar esse símbolo do poder real, anunciou-lhe que uma dessas maravilhosas alimárias fora vista no mais cerrado do bosque. Tal como esperava, o rei preparou-se para a caçada com uma emoção e alvoroço como há muito não sentia e partiu para o bosque, sem se aperceber de que os seus guardas fiéis não iam com ele, afastados pelo sawbwa. Escondidos no bosque esperavam-no os conspiradores talaings que lhe cortaram a cabeça, depois de matarem os criados bramaas, leais a Bayinnaung, que o defendiam.

Sem a protecção de Tabinshwethi, também o poderoso Diogo Soares, o Galego, foi justiçado pela populaça que o apedrejou e desfez em pedaços, acorrendo ao apelo de justiça de um pai a quem ele raptara a filha no dia do casamento, causando a sua morte.

Acompanhámos Fernão Mendes Pinto durante a primeira década da sua peregrinação de vinte anos pelo Oriente, aquela em que mais viagens fez, mais países visitou, mais desastres sofreu, mais fortunas ganhou e perdeu e mais personagens encarnou – espião, embaixador, médico, corsário, mercador, contrabandista e guerreiro mercenário –, que ele narra nos primeiros duzentos capítulos da sua obra.

Apartamo-nos dele aqui, porque esta nossa narrativa já vai longa – sendo o tempo tão curto e a vida tão breve – tanto mais que nos vinte e seis capítulos restantes Fernão vai cantar, não as suas façanhas mas as do padre Francisco Xavier de quem se fez amigo.

Após a morte do fundador da Companhia de Jesus, Fernão Mendes Pinto sentiu uma profunda exaltação religiosa e decidiu abandonar as ambições e prazeres mundanos para se consagrar a Deus. Entrou para a ordem como noviço, despojando-se de todos os seus bens, libertando os seus escravos e doando aos jesuítas a avultada fortuna que finalmente conquistara.

Passado um ano de noviciado, todavia, na sua quarta viagem ao Japão como embaixador ao serviço da Coroa e do padre Mestre Belchior Nunes Barreto, curou-se da crise de misticismo e saiu da Companhia de Jesus, regressando pouco depois ao reino, no ano de mil quinhentos e cinquenta e oito, para casar, criar família e escrever a sua Peregrinação que, no entanto, não foi publicada em sua vida.

Agradecimentos

Em primeiro lugar, gostaria de expressar a minha profunda gratidão às centenas de autores portugueses e estrangeiros que, embora desaparecidos há séculos, foram os meus Mestres, a quem rendo homenagem com os excertos das suas obras inseridos no início de cada capítulo, para que os leitores os possam recordar ou conhecer, pois eles são os gigantes que nos erguem generosamente nos braços, permitindo-nos ver mais alto e mais longe.

Agradeço também aos estudiosos contemporâneos, de várias áreas, cujas obras li, para alargar a perspectiva dada pelos autores coevos de Fernão Mendes Pinto, esclarecer dúvidas ou mesmo corrigir os erros, nomeadamente, aos Professores Rui Manuel Loureiro, por me ter disponibilizado o texto de Jorge Álvares na pesquisa sobre o Japão e Sérgio Capparelli (Brasil), pelos poemas chineses traduzidos que recolhi do seu blogue. Sem esquecer Eduardo Ribeiro (Macau) e Alan Pereira, pelo envio de artigos e sugestões de leituras para alguns dos temas do romance, assim como Eugénio Conceição (Brasil) e Jorge Manuel Gonçalves que leram os rascunhos deste livro e contribuíram com as suas sugestões.

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