Há vinte e cinco dias que sofrem os intensos ataques dos rumes, pois a sua carta deve ter despertado os maiores desejos de vingança de Soleimão Baxá, cuja sabida crueldade não conhece freio. No entanto, entre a sua gente, ela fora uma espécie de lufada de vigor, de valentia, pois, mal soa um alerta na fortaleza, acodem todos aos seus postos, homens e mulheres, sem uma queixa, sem um protesto, para fazerem cousas de maravilhar, como um dos enfermos da maldita doença que, vendo-se sem pelouros para o seu arcabuz, arrancou um dente que abanava e usou-o num tiro com que matou um turco.
O sacrifício das mulheres, então, deixa-o maravilhado, por vezes mesmo à beira das lágrimas, como o da viúva Bárbara Fernandes, que perdeu o filho mais velho no baluarte da Vila dos Rumes, tendo já ajudado o mais novo a morrer no próprio dia em que chegara a armada dos turcos. Sem nada poder fazer para lhe valer, vira-a suster as entranhas do moço de vinte anos que se esvaía em sangue no seu colo, enquanto o embalava, sem lágrimas, murmurando-lhe doces palavras de conforto.
Avista-a na atalaia, junto às outras mulheres, tanto casadas como solteiras, velhas e novas, com morriões63 enfiados nas cabeças, cobertas até à cinta com outras peças de couraças tiradas aos mortos, de lanças em riste, a mostrarem-se de quando em vez do alto do baluarte ou das ameias e buracos das bombardas, para que os inimigos as tomem por soldados e não se apercebam de que os portugueses são apenas aquele punhado de valentes que lhes fazem frente, recusando render-se.
Mais à frente está Isabel da Veiga, a formosa esposa do fidalgo Manuel de Vasconcelos, que a quis pôr a salvo da cobiça dos turcos, enviando-a, no início do cerco, para junto de seu pai, em Goa, numa fusta que ia, com os enfermos e feridos, levar o pedido de socorro ao vizo-rei. Enquanto o feitor da fortaleza quisera embarcar a todo o custo com o seu dinheiro (no que fora impedido por toda a guarnição que exigia o soldo que ele não pagava), Isabel recusara-se a partir.
– Que Deus não permita, senhor meu esposo, que eu me vá, donde vós ficais! – dissera-lhe diante de todos, com o gentil rosto banhado de lágrimas, esquecida da sua habitual sisudez e discrição. – Se haveis visto em mim alguma fraqueza ou descuido em vosso serviço, dizei-mo, por vossa vida, que eu me emendarei, mas não creio merecer esta áspera pena de me apartardes de vós. Enganais-vos, senhor, se cuidais que ficarei segura longe destes estrondos e perigos, porque em vossa companhia doces me são tais temores, enquanto que em Goa me matarão os pensamentos dos males e desastres a que estareis exposto. Rogo-vos, pois, que me não mateis com tal remédio e mandeis antes nossa filha para junto do avô.
O marido cedera, comovido, e Isabel começara a tomar parte nos trabalhos da fortaleza, ajudada pela velha Ana Fernandes, esposa do físico Fernão Lourenço, não tardando a arrastar atrás de si as restantes mulheres. Além de fazerem o comer para todos os homens e de cuidarem dos feridos, acarretavam em alcofas, debaixo de fogo, pedras, terra ou o que fosse necessário para as reparações da fortaleza.
Ana Fernandes era como uma mãe para todos os combatentes, socorrendo os doentes com toda a fazenda de sua casa, quer com panos para as ataduras, quer com as suas conservas e outros comeres. Com um bordão e um terço na mão, fazia todas as noites as suas rondas pelas muralhas, encorajando os homens a defenderem a sua vida e as dos companheiros. Nos combates, quando os pelouros choviam dentro da fortaleza, em vez de se esconder punha-se ao muro de arcabuz assestado, raramente perdendo um tiro. O seu exemplo fazia com que os homens redobrassem de valor e nenhum diante dela se atrevia a mostrar fraqueza ou covardia.
António da Silveira sabe que não poderão resistir por muito mais tempo ao cerco, que dia a dia se aperta em torno deles como um garrote. Desesperou já do socorro da armada, tantas vezes prometido pelo vizo-rei e nunca cumprido. Morrerá a lutar, porque nunca se renderá nem entregará a fortaleza, enquanto no seu corpo houver um sopro de vida. Viera para a Índia em busca de glória, mas também de fortuna, no entanto acabara por gastar tudo o que tinha de seu, dando mesa e pagando os soldos aos seus homens, e quando o dinheiro se acabara, passara a pagar-lhes com a prata lavrada – trazida do reino como reserva para alguma aflição – que fizera cortar e repartir por eles. Estava assim mais pobre do que quando chegara e, quanto à glória, se lhe reconhecessem alguma, decerto já não estaria vivo para se poder gozar dela. Mas não se arrependia.