Deitámos-lhe um fio para ele atar a carta, mas, um dos turcos, por pirraça, prendeu-a numa flecha, que pôs no arco, despedindo-a pelo ar, em graciosa curva. A seta passou sibilando rente ao rosto de António da Silveira, que acabara de entrar no cubelo, indo cravar-se numa trave de madeira, por trás da sua cabeça. Sem pestanejar, o capitão partiu-a pelo cabo, desenrolou a carta e, vendo que ali estavam os seus principais combatentes, leu-a em voz alta. Finda a leitura, deixou-nos dar vazão à ira até as nossas pragas e doestos abrandarem, pediu que lhe trouxessem papel, penas e tinta, sentando-se a uma pequena mesa para escrever a sua resposta de modo a todos ouvirem o que mandava dizer ao capado.
Em benefício do seu leitor mais curioso e apreciador do pormenor e do anedótico de uma história, a narradora do tempo presente transcreve no capítulo seguinte a carta com a respectiva resposta, mau grado as vernáculas expressões nelas contidas, assegurando que se trata de documentos verídicos registados em crónicas coevas ou guardados em Arquivos das Bibliotecas Nacionais.
56 Este monte, quase inacessível, foi conquistado pelos portugueses em 1594, tendo sido construído um complexo sistema de fortificações, adaptado ao terreno, com uma couraça e vários baluartes, sobranceiro à povoação e ao porto. Chaul foi entregue aos maratas em 1740.
57 Zambuco, tal como o pangaio, era uma embarcação pequena, de madeira leve, com o tabuado atado só com cairo ou fio de palma, sem pregos ou juntura de metal, de fundo chato por causa dos baixios, com velas de esteira ou a remos.
58 Restinga é uma acumulação de areia e seixos que forma uma barra à entrada de uma baía.
59 Peça de artilharia que lançava pedras em redor, fazendo grande esborralhada no inimigo.
60 Grande canhão, de cerca de quatro toneladas, que atirava pelouros (balas) de ferro de quase quarenta quilogramas.
VIII
Os senhores amam a traição, mas ao traidor não
(português)
Carta de Francisco Pacheco a António da Silveira, Capitão de Diu, ditada por Soleimão Baxá:
Senhor, nós nos entregámos ao grão Soleimão Baxá com seu seguro chapado d’ouro, que nos deixariam ir livres para a fortaleza; e como nos saímos nos disseram que primeiro lhe devíamos ir fazer a salema61, e nos levaram à sua galé . Disse que era contente, como tomasse a fortaleza que logo nos daria embarcação para a Índia, e que se a não tomasse, que então nos deixaria ir para ela, como dizia em seu seguro.
Ele diz que lhe entregueis a fortaleza, com a pólvora e artilharia e suas munições e as armas, e que largará a todos, que com suas fazendas se vão livremente para a Índia; e que se isto não quiserdes fazer, por mar e por terra vos combaterá, e tomará, e vivos esfolará; e que isto poderá mui bem fazer, porque tem para isso bela gente e artilharia, e hoje se tirou fora um basilisco, e tirará quantos quiser. Haja nisto bom conselho, porque tudo o que quiser fará.
Resposta do Capitão António da Silveira a Soleimão Baxá:
Muito honrado capitão Baxá
Bem vi as palavras de tua carta, e do capitão do baluarte, que tens cativo por traição e mentira de tua palavra, afirmada com tua chapa; o que fizeste porque não és homem, pois não tens colhões, que és como mulher mentirosa e de pouco saber. Como me cometes que faça contigo concerto, pois diante meus olhos fizeste traição e falsidade?
Pelo que te não tenho em nenhuma conta . E sabe por certo que aqui estão portugueses acostumados a matar muitos mouros, e que têm por capitão António da Silveira, que tem um par de colhões mais fortes que os pelouros dos seus basiliscos, que não há medo nenhum a quem não tem colhões nem verdade.
O curral diante de ti está, com tal gado que já lhe tens medo e cometes concerto para fazer traição; o qual concerto inda que o eu quisesse fazer, aqui estão tais cavaleiros, que me deitariam no mar, e eles lho defenderiam .
E não sejas mais ousado a me escrever semelhantes cousas, porque a todos os que vierem com teu recado, mandarei espedaçar às bombardadas.
António da Silveira sente que está a perder o ânimo e isso será o fim de Diu, porque ele é o arrimo daquele bando de maltrapilhos esquálidos, escalavrados, famintos, de bocas apodrecidas a cheirarem como fossas, pernas inchadas que mal se sustêm de pé e mãos intumescidas, sem unhas, incapazes de brandir uma espada ou disparar um arcabuz. Danada peste, este mal de Angola62. Chamavam-lhe mal de Angola porque nas viagens para a Índia surgia por alturas de Angola, a dizimar as tripulações, causada pela falta de água e alimentos frescos. A água da cisterna está corrupta, há muito que não se come senão arroz bichoso e pão tão duro que os doentes, com as dores das gengivas, o não podem tragar, nem molhado.