Embora Lopo de Sousa Coutinho, em presença de outros oficiais, o instasse a não crer no que lhe dizia António Faleiro nem na carta do seu capitão, porque, dois dias antes, quando fora levar-lhes munições e oferecer ajuda, Francisco Pacheco, que agora jurava estar prestes a finar-se, não o deixara subir ao baluarte, dizendo-lhe, com voz muito sã, que estava bem provido de tudo e mandara-o embora. São mais de setenta portugueses, com muitos escravos, meu capitão! Quase tanta gente como a que aqui tendes ainda capaz de pegar em armas!, protestara, indignado. Alguém acrescentara: Entre os escravos mouros, diz-se que Pacheco foi duas ou três noites falar com os capitães turcos. A ser verdade, já concertou a rendição!.

Apesar destas más suspeitas, não pudera ordenar aos do baluarte que morressem, estando ele a salvo na fortaleza. Dissera-lhes que fizessem o que Deus lhes aconselhasse, mas que não se fiassem nas promessas faladas ou escritas daqueles inimigos, que eram falsos e fementidos, não guardando verdade a ninguém, nem sequer aos seus parentes.

Sentira (e ainda sente ao recordar a cena) o sangue subir-lhe ao rosto, de raiva e vergonha, quando vira ser hasteada no castelo do baluarte a bandeira turca, embora não pudesse saber, naquele momento, que quatrocentos janízaros, cobiçosos do saque, desrespeitando as tréguas, tinham subido por escadas de madeira e pelos escombros dos muros caídos, para tomarem posse do baluarte, derrubando logo as bandeiras portuguesas com a cruz de Cristo, para hastearem a vermelha com as insígnias do grão-turco.

Vira as lágrimas correrem pelos rostos dos defensores da fortaleza, homens e mulheres, que das trinchas dos muros observavam com ele o sinal da capitulação. Fora como se aquelas lágrimas, todavia invisíveis aos que se rendiam, houvessem dado rebate ao velho João Pires que, escandalizado de ver a bandeira lançada ao chão, ajudado por outros cinco homens, arreara a turca, lançando-a para fora do baluarte, e levantara de novo a portuguesa. Na fortaleza, embora não pudessem ver o que se passava, haviam saudado o subir do estandarte de Cristo com muitos gritos, aplausos e encorajamentos, que esmoreceram ao vê-lo de pronto substituído pelo do Crescente. Por três vezes se repetira aquele jogo, até que os portugueses foram mortos e os turcos, enraivecidos pelo confronto, cortaram-lhes as cabeças, lançando os corpos da torre para o mar.

No mesmo instante em que os corpos entraram na água, sendo maré cheia, por estranho acaso, o mar pareceu refrear o seu curso. Em vez de subir baixou, trazendo-os em contracorrente até à porta da couraça, na fortaleza, onde os mandara recolher e levar à igreja, em solene cortejo, como mártires. Por virem descabeçados, fizera-os expor em caixões, com guarda de honra, a fim de serem reconhecidos de amigos ou parentes por alguns sinais que tivessem. Toda a gente da fortaleza os viera ver, para lhes prestar homenagem.

Estava presente quando Bárbara Fernandes passara diante dos ataúdes. Ouvira o gemido, logo sufocado, que ela soltara ao ver o terceiro corpo. É o meu filho! Reconhecê-lo-ia entre mil!, bradara para os que estavam junto dela, A sua voz não tremera, antes soara vibrante como se o orgulho pela bravura do filho lhe sustivesse o ânimo, mitigando a dor da sua perda. Apesar de moço, Luís preferira morrer a render-se. António da Silveira acercara-se de Bárbara que se mantinha muito direita, sem lágrimas, mas de mãos enclavinhadas na borda do ataúde. Tomara-lhe a mão direita, enfarruscada e calejada pelo trabalho, beijando-lha com a mesma devoção e acatamento que faria à rainha de Portugal. A mulher soltara então o seu pranto e o capitão de Diu apertara-a nos braços, com a mesma ternura dos filhos que perdera.

Os seis mártires foram enterrados todos juntos na mesma sepultura diante do altar-mor. Naquela noite, Bárbara vira cinco estrelas a cintilar, como um clarão de fogo, sobre o baluarte em que o filho morrera com os seus companheiros de martírio, e dera rebate para que todos testemunhassem o sinal milagroso de que Deus os recebera no Paraíso.

61 Saudação.

62 Escorbuto.

63 Capacetes, cascos.

IX

Os homens são alcatruzes do mundo: pelos sãos vem a ordem e pelos quebrados se vai a virtude

(português)

Carta do Governador Nuno da Cunha ao Vizo-Rei D. Garcia de Noronha:

Senhor, ainda que [Vossa Senhoria] se faça prestes com tanta pressa quanto pode, vejo eu lançar mão de tantos navios, que serão causa de tardardes muito, e também de espalhardes a gente, artilharia e munições, donde ficareis mais fraco. E parece-me a mi, que se poderão escolher entre todas estas velas oitenta mui boas, que para cinco mil homens, que V. S. poderá levar, esta Armada bastava, porque iria ela mui cheia de gente e mui bem aparelhada para tudo o que cumprisse. E eu sei, segundo as novas dos que vêem a vossa Armada, de quão mal aparelhada ela está.

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