Se V. S. tão cedo não pode ir, por alguns negócios ou impedimentos que terá, pode tomar quinze ou vinte fustas e catures, com um homem principal que vá neles por Capitão e capitães para os outros navios, entre homens que saibam da guerra e valentes cavaleiros que aqui há, com muitas panelas de pólvora e espingardas, não duvido eu que, indo estes navios, que podem levar trezentos ou quatrocentos homens, que dando nas galés [dos Rumes] de noite ou antemanhã, que lhes não fiquem meia dúzia nas mãos, tomadas ou queimadas. E assi podem ir em companhia destes, três ou quatro fustas grandes de chatins64, carregadas de biscouto e pólvora, para que em estes dando, na volta possam estas passar, e entrar em Diu, e dar-lhes o que levarem. Esta gente e Armada não desfaz na vossa, porque lá a tem diante e estão prestes. Este, Senhor, é o meu parecer, que V. S. quis que lhe desse por escrito.

Goa, aos quinze dias de Outubro, do ano de mil quinhentos e trinta e oito

Tal como António da Silveira previra, rendido o baluarte, os rumes faltaram à palavra dada. Em vez de deixarem ir os portugueses em liberdade para a fortaleza, levaram-nos em almadias, desarmados e debaixo de escolta, a Soleimão Baxá que os dera aos seus capitães para escravos remeiros das galés. O capado não lhe perdoara a afronta da sua carta e vingara-se em Francisco Pacheco e nos sessenta cativos, cortando-lhes os narizes e as orelhas que mandou salgar para enviar ao grão-turco, como prova do seu bom desempenho naquela conquista. Assim lho fizera saber por mensageiro, para atemorizar os sitiados.

A partir daí fora o jogo do rato e do gato. Se os turcos davam bateria a um baluarte, ele mandava fazer outro por trás do antigo, de modo que, quando este ruía, já o novo estava de pé a impedir-lhes a entrada; os mouros de Coja Çofar vinham picar os muros ou cavar minas por baixo da fortaleza, Lopo de Sousa Coutinho ou Manuel de Vasconcelos, mal os sentiam, acudiam com os seus homens à cava, com contraminas, a rebatê-los com piques e espadas; se os rumes vinham de noite com escadas para escalar as fortificações, eram recebidos com panelas de pólvora e óleo a arder que os abrasavam.

Como os portugueses matavam muitos dos que vinham picar os muros, os turcos fizeram umas grandes balas de algodão – fardos forrados de couro – e uns cavalos de madeira com rodas, igualmente acobertados de couro, com seteiras dos lados, para se acercarem da cava da fortaleza e do baluarte de S. Tomé, a fim de derrubarem os muros. Iam assim tão protegidos que os sitiados nem os viam, no entanto, da fortaleza lançavam-lhes lenha a arder, ola acesa com manteiga e outras invenções de fogo e pólvora, que queimavam muitos cavalos sem, todavia, atingirem as grandes balas de couro que estavam junto do fosso da muralha, a servir-lhes de tranqueiras onde se recolhiam.

António da Silveira mandou então Gaspar de Sousa esconder-se na cava com oitenta homens durante a noite, para de manhã as destruírem com materiais que levavam. O que ele fez, pondo-lhes fogo e matando mais de cinquenta inimigos, antes de ser morto com outros cinco homens, durante a retirada, apesar da protecção dos que faziam fogo da fortaleza. Sousa mandara recolher os seus homens e voltara para trás a buscar três soldados gentios que se tinham atrasado. Rodeado por uma vaga de inimigos, recusara-se a fugir, fazendo grande destruição nos que o atacavam, até lhe jarretearem as pernas e cair morto, arrancando lágrimas de dor aos que na fortaleza tentavam ajudá-lo com tiros de mosquete e besta.

O capitão sentia-se responsável por cada morte, embora desse o exemplo, pondo-se sempre nos lugares de maior perigo ou de vela, dormindo apenas por breves intervalos de tempo, quando a artilharia se calava. Vira morrer demasiada gente de grande valor, como Tristão Gomes, o bombardeiro que fugira da armada do capado para lhe vir dar aviso da sua vinda, acabando por tombar numa tranqueira inimiga. Os feridos e queimados não cessavam de crescer, jazendo pelo chão entre os escombros, sendo os mais graves recolhidos na única casa que se mantinha de pé, a do físico Fernão Lourenço e de sua esposa Ana Fernandes que lhe servia de enfermeira.

Era a trindade negra da guerra, fome e doença, em todo o seu rigor! A fortaleza parecia uma velha ruína, com os muros derrubados por todas as partes, os baluartes juncados de peças de artilharia rebentadas. Em finais de Outubro, acontecera um pequeno milagre, com a chegada de quatro catures com vinte e oito homens, enviados pelo vizo-rei, os quais, mostrando-se muito honrados em partilharem da sua sorte, por eles serem um exemplo de coragem para todas as fortalezas da Índia, deram aos sitiados um grande alento, ainda que a vinda de D. Garcia com a armada continuasse a ser uma incógnita ou o milagre maior no qual já ninguém acreditava.

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