Com as provisões que lhes trouxeram os recém-chegados, as mulheres ganharam nova vida, a amassar pão, a fazer rosquilhas, cozinhando até arroz com manteiga ou jagra, o açúcar mascavado de palmeira. Levavam a comida em cestas e panelas ao capitão, que com elas percorria as estâncias, repartindo-a com a sua própria mão, por todos os homens, que comiam no mesmo lugar que defendiam, por então não ser tempo de se sentarem à mesa em grandes comezainas, mas de dar a comer aos rumes o pão que o diabo amassou.

Os dois assaltos de Mahamed Khan com a sua armada ao baluarte do mar saldaram-se por duas vergonhosas derrotas e morte do temível capitão com centenas dos seus homens e os turcos não podiam esquecer a surriada com que os portugueses haviam saudado a sua retirada, escalavrados das pedras e mascavados do fogo das panelas de pólvora. Vendo o baluarte que fora defendido por Gaspar de Sousa, arrasado até ao entulho, todo desabrigado, tendo por defesa apenas uma parede que dava pelos peitos dos homens que se acobertavam por trás dele, os turcos saíram das estâncias e acometeram-no por dois lados com grande determinação de o conquistar para entrar na fortaleza; mas retiraram-se com pesadas baixas porque a resistência dos sitiados não abrandou durante o resto do dia até ao dia seguinte, matando e ferindo muitos.

Isabel da Veiga e Ana Fernandes, arrimadas ao seu bordão, andavam pelo baluarte no meio dos homens a dar-lhes ânimo, sem um estremecimento sob a chuva de pelouros e flechas que lhes assobiavam aos ouvidos.

– Ah, filhos, aqui tendes quem vos há-de dar a vitória! – gritava a velha senhora erguendo no ar um crucifixo. – Pelejai, cavaleiros de Cristo, esforçados capitães e soldados da Fé, que d’Ele vos há-de vir todo o socorro!

– Ponde os olhos nesta Cruz – secundava Isabel, com idêntico fervor –, que nela está a salvação.

Em trajos de homem, Catarina Moreira brandia o chuço nas mãos e chamava os três soldados que, exaustos, se tinham sentado no chão, apoiados contra o muro, de olhos cerrados.

– A eles! A eles, senhores, que são infiéis e vós sereis vence.

Virara-se para trás e o tiro de arcabuz que a apanhou pelas costas, cortou-lhe a palavra e derrubou-a. Os três soldados gritaram em uníssono, erguendo-se para a socorrer, mas já ela se punha em pé, ajudada por Isabel da Veiga:

– Não é nada – sossegou-a e foi-se curar.

Envergonhados, os soldados juntaram-se aos companheiros que se preparavam para enfrentar a morte. Tal como aquela mulher que, de espada à cinta e capacete na cabeça, viera pôr-se ao muro, no mesmo lugar deixado por Catarina a carregar o mosquete com gestos preciosos. Conhecida apenas como A Marquesa, era ainda galante e de bom parecer, apesar de ter passado dos trinta anos, os homens achavam-na assaz tentadora, talvez devido ao seu passado turbulento, misterioso. Ninguém ignorava que ela era a viúva de João Santiago, o língua renegado morto com o sultão Bahadur, o que não abonara em seu favor.

– Senhores, agora vereis quão pouco prestam estes perros, pois eu vivi entre eles e aqui me vedes a esperá-los sem medo.

Lançava um desafio aos homens, zombando da sua passada condição de escrava ou concubina, e os que a ouviram aprumaram-se, agastados, aprestando as armas. Muitos tinham tentado conquistar-lhe as boas graças, mas a todos rejeitara de modo tão cru que nenhum se atrevera a insistir. Talvez por isso, as mulheres de Diu que, de início, tinham mexericado sobre o seu passado, tratando-a com desprezo, ou afastando-se dela, agora pareciam estimá-la e até admirá-la. A sua pasmosa história correra da fortaleza à cidade dos portugueses, embora nunca confirmada pela própria.

Fora feita cativa na flor da idade por mouros, no ano de mil quinhentos e vinte e três, na galé de Bastião de Noronha, oferecida a Carcandacão, então rei de Diu. Falara sempre castelhano, escondendo a sua condição de portuguesa e nunca revelara o nome da família. Um escravo dissera que, na galé, ouvira nomearem-na por Marquesa, e o título passou a nome, pois lhe assentava como uma luva, dado o ânimo altivo, intrépido e rebelde com que enfrentava a adversidade. El-rei de Cambaia guardou-a no seu harém durante cinco anos, sem que ela renegasse a sua fé, acabando por dá-la em casamento ao português Estevão Dias Brigas, piloto e capitão de quarenta e oito corsários franceses, cujo navio arribara às costas de Diu no ano de vinte e oito. A fim de salvarem as vidas todos se tinham convertido à Lei de Mafamede, engajando-se na armada real. Agradado da valentia e engenho de Brigas, Carcandacão fizera-o capitão ofertando-lhe A Marquesa como prémio. Ela aceitara o casamento, mas recusara teimosamente fazer-se moura.

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