Pouco tempo estivera casada, porque o marido morrera durante as guerras de sucessão no Guzerate, e ela fora feita novamente cativa e enviada para o harém de Bahadur, o príncipe vencedor. Depois da conquista de Mandu, no ano de trinta e três, em sinal de regozijo, dera-lhe alforria junto com outras escravas e concubinas, concedendo também aos portugueses permissão para construírem a fortaleza em Diu. Fora então que o governador Nuno da Cunha mandara Diogo de Mesquita com Simão Ferreira a Diu, para tratarem do seu encontro com Bahadur, os quais levavam como língua João de Santiago, o aventureiro mais astuto, fascinante, dissimulado e sem escrúpulos que alguma vez o Diabo pôs no mundo. Bahadur dera-lhe casas, rendas de vinte mil pardaus e oferecera-lhe por esposa a cobiçada Marquesa.
Recordava-o sempre com um misto de asco e de anseio, que a faziam estremecer. Sendo uma fraca figura, cujo rosto, marcado pelo mal de Lázaro, repugnava à primeira vista, João de Santiago, com os seus modos insinuantes, falinhas mansas e perfeito domínio das línguas da terra, caíra logo nas graças de Bahadur, como aliás acontecera com outros reis gentios ou mouros, com os capitães e governadores portugueses. Tratara-a como uma rainha ou deusa e ela estava-lhe grata por se ver livre do harém.
De certo modo, A Marquesa identificava-se com a sua luta para sobreviver, se bem que não estivesse pronta, como ele, a fazê-lo a qualquer preço. Natural do norte de África, Santiago fora cativado em menino, durante uma razia feita por portugueses à sua aldeia, transportado para Lisboa onde, depois de baptizado, fora vendido como escravo a um calafate que o levara para Goa, ensinando-lhe o seu mester. O amo, ao morrer, deixara-o forro e com algum dinheiro para dar começo à sua vida.
O moço que, além do português e do árabe, aprendera a falar as línguas guzarates e malabares, não tivera dificuldade em fazer-se negociante de pedras preciosas em Canará. Fingindo-se adorador de Shiva, tornara-se valido do rajá, até o poder lhe subir à cabeça e fazer tamanhos desmandos que el-rei o condenara à morte. Fugira então para Ormuz, onde, tendo-se mostrado como mouro zeloso na sua Lei, voltara a ser bafejado pela Fortuna, mas repetira os mesmos erros, caindo de novo em desgraça. Fora salvo da morte, in extremis, pelo capitão Diogo de Melo que, como ele se mostrara sempre o melhor dos cristãos, o ajudara a fugir para Goa.
Em Diu começara nova ascensão ao serviço do governador. Para ela o aceitar por esposo, Santiago prometera-lhe que desta vez não faria nada que arrostasse com o desagrado e o castigo do sultão ou dos portugueses. Não cumprira a promessa, porque no ano anterior, durante a escaramuça em que o Bahadur fora morto, vendo-se sem o seu protector mouro, procurara acolher-se à fortaleza para se salvar como cristão, mas os portugueses, que o desprezavam por renegado e traidor, mataram-no à pedrada.
A Marquesa, de novo viúva, fora resgatada nos paços do sultão pelo governador Nuno da Cunha que, ao tomar conhecimento dos avisos que ela dera secretamente a Manuel de Sousa sobre a traição que Bahadur preparava, lhe mandara entregar todos os bens e fazenda do marido, trazendo-a com muita honra para a fortaleza, a fim de a embarcar para Goa, mercê que ela recusara.
Ali gozava de uma liberdade que não teria na capital da Índia, onde voltaria a sentir o desprezo dos reinóis, que não deixariam de ver nela uma barregã, concubina de mouros e gentios. As donas e donzelas de qualidade nunca a receberiam em suas casas (onde viviam tão encerradas e cativas como quaisquer mouras de um serralho), pois todas jurariam que antes haveriam de morrer pelas suas próprias mãos, a sofrerem a sua horrenda sorte. Ela não o fizera, preferindo a vida sem honra ao martírio, e não se arrependera da escolha.
Enquanto escrava, não rendera o seu espírito e essa ousada rebeldia conquistara-lhe tanto a admiração como o favor dos homens de quem fora cativa, que lhe pediam conselho sobre os negócios dos franges; como esposa do capitão corsário ou do língua renegado, fora tão livre como qualquer homem. Quando a horda dos rumes e mouros entrasse na fortaleza, não se deixaria apanhar viva, desta vez escolheria morrer com o gosto na boca daquela liberdade sentida em todo o seu corpo, como o mais belo dos cânticos. Apoiou a arma carregada ao muro e ficou à espera.