Se não conquistasse Diu, teria grande dificuldade em se justificar ante o sultão Kanuni Soleimão, o Legislador, por não ter cumprido o seu regimento, cujas ordens eram quebrar a armada dos franges, as suas forças do mar. Por outro lado, as provisões começavam a escassear, porque as gentes das terras em redor lhes haviam ganhado ódio, pelas manhas e abusos que os seus homens cometiam, roubando-os ou tomando-lhes as mulheres, de modo que já não lhes traziam mantimentos, preferindo dá-los aos portugueses.

A vinda do vizo-rei com uma fortíssima armada de cento e cinquenta velas com seis mil homens era já uma certeza, vira-a na carta enviada ao cão do Coja Çofar por um dos seus espiões em Baçaim, mas neste momento, já não estava preparado para enfrentá-lo. Por isso, nessa manhã, iria tentar a conquista da fortaleza, num último assalto com toda a sua gente. Se Allah, por alguma desconhecida razão, não lhe permitisse vencer, abandonaria o cerco e regressaria ao Cairo.

Precisava de dar largas à sua fúria, satisfazer a sua vingança e dar um lição aos guzarates, embora não pudesse cortar a cabeça a Coja Çofar ou a Alucão, como desejava, porque, se o fizesse, ele e os seus homens seriam massacrados por um exército cinco vezes superior ao seu, como desforra pela morte dos seus oficiais. Na falta deles mandou descabeçar António Faleiro, que não soubera dar-lhe informações precisas sobre a vinda do vizo-rei, nem sobre a gente ou o armamento que havia na fortaleza.

Coja Çofar e Alucão ficaram aliviados por verem a ira do capado cair sobre a cabeça do português e não nas suas; o seu enfadamento e os sinais de querer abandonar o cerco vinham ao encontro dos desejos da corte de Ahmadabad. A rainha e os regentes do rei-menino de Cambaia, depois de conhecerem a cobiça de Soleimão Baxá, a brutalidade do seu exército e o modo arrogante como desprezava ou desacatava Alucão e os seus oficiais, temiam que as intenções do turco não fossem tanto de os auxiliar contra os portugueses, mas de subjugar o reino e todo o Guzerate. Ansiavam por se verem livres da presença dos indesejáveis aliados, preferindo até os portugueses como o menor dos dois males; se não conseguissem conquistar Diu para el-rei de Cambaia, concertariam a paz com o vizo-rei, porque os franges se contentavam com as fortalezas nas ilhas e portos, sem desejos de conquista da terra firme.

Çofar forjara aquela carta para assustar Soleimão Baxá e lograra o seu intento, porque o capado começara a preparar a sua retirada. Deste modo, a fortaleza que estava quase totalmente destruída, seria conquistada pelos seus homens, sem recurso ao exército de Alucão, um feito que lhe haveria de trazer de novo o favor d’el-rei de Cambaia e da rainha sua avó, que ele havia perdido quando se aliara aos portugueses, depois da morte de Bahadur, aceitando o governo da cidade de Diu.

As galés a remos da armada do capado passaram além do baluarte do mar e foram surgir com as proas viradas para terra, no lugar onde costumavam fazer aguada. A pequena frota de António da Silva, que aguardava uma ocasião de furar o cerco e entrar em Diu, descarregou as suas baterias sobre os primeiros navios. O alarme soou na fortaleza e os sitiados, como não podiam saber de quem eram os tiros, creram que os turcos se preparavam para desembarcar toda a sua gente, a fim de os virem acometer num decisivo combate. António da Silveira sentiu o desespero dos seus homens e, chegando-se ao baluarte onde havia maior ajuntamento, falou-lhes com alegria:

– Senhores, espanta-me ver-vos tristes, quando Deus nos mostra a Sua estima, porque, sendo nós tão poucos, numa fortaleza com tantas portas abertas, as temos defendido contra uma multidão de inimigos que a cada assalto vieram com forças dobradas e nós levámos cada vez menos tempo a malferi-los e desbaratá-los! Com que coração, pois, nos virão ora acometer? Se Nosso Senhor nos quiser levar para Si, morreremos mártires por sua santa fé, ganhando fama por combatermos pela nossa Lei e o nosso rei. Rogo-vos que não mostreis tristeza, mas alegria, cantando, gritando, apupando os nossos inimigos, para que cuidem no mal que os espera.

O capitão parecia inspirado por uma força misteriosa que não o deixava desanimar, nem mesmo nos momentos de maior perigo ou nas situações mais desesperadas, em que era sempre o primeiro a enfrentar os adversários, acorrendo a todos os combates, sem um momento de repouso. Foi com ânimo novo que os homens se prepararam para a batalha final e para a morte, pois não seria possível resistir ao poder dos rumes e dos mouros.

Envergaram os melhores trajos que tinham, ouviram missa na igreja em ruínas, confessaram-se, comungaram e fizeram voto de castidade. As mulheres vestiram as couraças e os capacetes dos soldados mortos, armaram-se de lanças e piques, indo juntar-se aos homens nos postos de batalha. António da Silveira mandou pôr muitas bandeiras por todas as estâncias e fez tanger uma grande matinada de trombetas, pífaros e tambores, como em dia de vitória.

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