– O vedor da Fazenda e Pêro Lopes de Sousa não fazem el-rei mais rico com esta pimenta, o que fizeram foi mostrar-se bons servidores! Folgo porque no paiol não acharam mercadorias defesas70, senão as arcas de muita pobreza dos homens que ganharam a fortaleza de Diu às lançadas, aos quais eu quero bem como a meus próprios irmãos, pelo que lhes vi fazer, pelejando com os rumes. Se Pêro Lopes o vira, ele os estimara como eu, mas esta maldição há-de morrer com a Índia: enquanto o povo e os pobres homens trabalham, os grandes levam o proveito e o seu suor, de que Deus ouvirá os seus gemidos.

Escrevera a el-rei, fazendo-lhe muitas queixas pelo modo injusto como eram tratados os homens que mais serviços prestavam a Sua Alteza, com risco das próprias vidas.

No rescaldo da vitória de Diu, pelo contrário, as liberalidades concedidas pelo vizo-rei aos mouros inimigos depressa deram fruto e a cidade recuperou a sua anterior animação e prosperidade, com o porto a receber as naus de trato como outrora. Sabendo que as pazes assinadas entre D. Garcia de Noronha e el-rei de Cambaia haviam sido muito mais proveitosas para os vencidos do que para os portugueses (o que causara grande paixão e escândalo a António da Silveira e aos que tão caro haviam pago a vitória), os rumes que tinham andado a monte no sertão depois da fuga do capado, aproveitando o seguro concedido pelo vizo-rei, regressaram com os moradores. Tomando tal concerto de paz como sinal de fraqueza dos cristãos, recomeçaram com as provocações, os conflitos e confrontos, sempre que se cruzavam com qualquer português que fosse passear ou fazer tratos à cidade, causando frequentemente brigas com feridos ou mortos de parte a parte.

Todos trabalhavam na reedificação da fortaleza, estando os baluartes e troços de muralhas repartidos pelos capitães da armada com os seus soldados, matalotes e escravos. Por Pêro de Faria ter muita gente na sua nau, porque ninguém tinha desertado com o desejo de ir no seu serviço para Malaca, destinaram-lhe a reconstrução do baluarte do mar com a couraça da banda da terra, na parte mais difícil de trabalhar, o qual, apesar de ser o mais danificado, foi refeito e melhorado em apenas vinte e seis dias pelos seus trezentos homens, com o contributo de todos os seus oficiais, dos fidalgos seus parentes.

Terminado o trabalho, aprestavam-se para a partida, tendo Faria recebido ordens do vizo-rei para se prover em Goa de mais navios, gente e provisões que necessitasse de levar para Malaca, a tempo da monção. Fernão despedia-se de Diu, revisitando os lugares que vira antes e, depois do cerco, ajudara a erguer das cinzas, sentindo-se orgulhoso da obra feita, mas também ansioso por partir, pois ali nada mais ganhara do que o soldo.

A estadia valera pelo convívio, a fraternidade criada entre os recém-chegados e os cercados, que não lhes censuravam a demora do socorro, sabendo que a culpa não era deles mas de quem mandava. Fernão fizera amigos, como António de Azevedo, o capitão do baluarte do mar.

Querendo dar-lhe uma mostra da sua estima e um presente de despedida, o capitão convidara-o com outros dois companheiros para uma montaria ao javali, organizada por alguns mouros da cidade seus amigos, na quinta de Meliquiaz onde outrora pousara o sultão Bahadur. Conseguida a licença do capitão da fortaleza, tinham partido ao nascer do sol, levando um bom número de escravos carregados com muita comida e bebida, a fim de passarem umas horas de desenfadamento, em boa companhia.

Chegados à coutada, os criados armaram o acampamento num formoso arvoredo onde, depois de algumas horas de montaria, terminada com a morte de um porco selvagem, os caçadores se vieram deitar à sombra das árvores para comer, conversar e repousar. Os cinco mouros amigos de Azevedo eram gente nobre e de muita polícia71, todos bons caçadores. Falavam a língua franca, uma mistura do guzarate com o português, usada na terra tanto pelos moradores e mercadores da cidade, como pelos portugueses da fortaleza, sem necessidade de intérpretes.

Só deram por eles quando já estavam cercados pelo bando de quinze rumes, armados de terçados, machadinhas, arcos e flechas. Os olhares e sorrisos de mofa que lhes deitam não deixam dúvida quanto às suas intenções: provocar uma briga para matar os cristãos com os mouros que sejam tão loucos que ousem tomar o partido dos inimigos da sua lei. Longe da fortaleza e da cidade, os portugueses eram mais vulneráveis e os crimes ficavam quase sempre impunes.

Sem aguardarem por saudação ou convite, começam a servir-se, comendo do que lhes apetecia, insultando-os, por entre risos, com palavrões em português decerto aprendidos durante o cerco:

– Capados! Cornudos!

– Judeus! Infiéis!

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