Ela teve de pensar por um momento para se lembrar.

– Dez.

– Dez, senhor – ele lhe lembrou. – Gosta de animais?

– De alguns. Senhor.

Um pequeno sorriso crispou seus lábios:

– Mas de leões não, ao que parece. Nem de manticoras.

Arya não sabia o que responder àquilo, então não disse nada.

– Dizem-me que a chamam de Doninha. Isso não servirá. Que nome sua mãe lhe deu?

Ela mordeu o lábio, em busca de outro nome. Lommy chamara-a Cabeça de Caroço, Sansa tinha usado Cara de Cavalo, e os homens do pai tinham-na alcunhado de Arya Debaixo dos Pés, mas não lhe parecia que algum desses fosse o tipo de nome que ele queria.

– Nymeria. Só que me chamava de Nan.

– Você vai me chamar de senhor quando falar comigo, Nan – disse o senhor brandamente. – É nova demais para ser um Bravo Companheiro, acho, e do sexo errado. Tem medo de sanguessugas, filha?

– São só sanguessugas. Senhor.

– Meu escudeiro poderia aprender alguma coisa com você, ao que parece. Sangramentos frequentes são o segredo de uma vida longa. Um homem tem de se purgar do sangue ruim. Parece-me que servirá. Enquanto eu ficar em Harrenhal, Nan, será minha copeira e vai me servir à mesa e em meus aposentos.

Dessa vez, sabia que não era boa ideia dizer-lhe que preferia trabalhar nos estábulos.

– Sim, minha senhoria. Quero dizer, sua senhoria.

O senhor sacudiu a mão.

– Deixem-na apresentável – o homem ordenou, para ninguém em especial. – E assegurem-se de que ela aprenda a servir vinho sem derramar – virando as costas para ela, ergueu uma mão e disse: – Lorde Hoat, trate daquelas bandeiras por cima da guarita.

Quatro Bravos Companheiros subiram até as ameias e arriaram o leão de Lannister e a manticora negra de Sor Amory. Em seu lugar içaram o homem esfolado do Forte do Pavor e o lobo gigante de Stark. E, nessa noite, uma pajem chamada Nan serviu vinho a Roose Bolton e Vargo Hoat, enquanto eles observavam da galeria os Bravos Companheiros que exibiam Sor Amory Lorch, nu, no pátio intermediário. Sor Amory suplicou, soluçou e agarrou-se às pernas de seus captores, até que Rorge o obrigou a largá-las e Shagwell o atirou com um pontapé para dentro do fosso do urso.

O urso está todo de negro, pensou Arya. Tal como Yoren. Encheu a taça de Roose Bolton, e não derramou uma gota.

Daenerys

Naquela cidade de esplendores, Dany tinha pensado que a Casa dos Imortais fosse a mais magnífica de todas, mas saiu do palanquim para contemplar uma ruína cinzenta e antiga.

Longo e baixo, sem torres nem janelas, o edifício enrolava-se como uma serpente de pedra através de um bosque de árvores de casca negra, cujas folhas de um azul carregado constituíam a matéria-prima para a bebida mágica que os qartenos chamavam de sombra da tarde. Não havia outros edifícios por perto. Telhas negras cobriam o palácio, muitas das quais caídas ou quebradas; a argamassa entre as pedras estava seca e se desfazendo. Agora compreendia por que Xaro Xhoan Daxos o chamava de Palácio de Poeira. Até Drogon pareceu inquieto ao vê-lo. O dragão negro silvou, expelindo fumaça por entre seus dentes afiados.

– Sangue do meu sangue – disse Jhogo em dothraki –, este é um lugar maligno, um covil de fantasmas e maegi. Vê como suga o sol da manhã? Vamos embora antes que nos sugue também.

Sor Jorah Mormont ficou ao lado deles.

– Que poder eles podem ter se vivem naquilo?

– Escute a sabedoria dos que mais a amam – disse Xaro Xhoan Daxos, recostado dentro do palanquim. – Os magos são criaturas amargas que comem poeira e bebem das sombras. Nada lhes darão. Nada têm para dar.

Aggo pousou uma mão no arakh.

Khaleesi, é dito que muitos entram no Palácio de Poeira, mas poucos de lá saem.

– É dito – Jhogo concordou.

– Somos sangue do seu sangue – Aggo continuou. – Juramos viver e morrer convosco. Deixe-nos entrar junto neste lugar escuro, para mantê-la a salvo do mal

– Há lugares que até um khal tem de percorrer só – Dany respondeu.

– Então leve-me – pediu Sor Jorah. – O risco…

– A Rainha Daenerys deve entrar sozinha, ou não entrará – o mago Pyat Pree surgiu por entre as árvores. Esteve ali o tempo todo?, perguntou-se Dany. – Se virar as costas agora, as portas da sabedoria ficarão para sempre fechadas para ela.

– Minha barca de prazer espera, mesmo agora – gritou Xaro Xhoan Daxos. – Afaste-se dessa loucura, oh, mais teimosa das rainhas. Tenho flautistas que acalmarão sua alma perturbada com bela música, e uma menininha cuja língua a fará suspirar e derreter.

Sor Jorah Mormont deu ao príncipe mercador um olhar azedo:

– Vossa Graça, lembre-se de Mirri Maz Duur.

– Lembro-me – Dany respondeu, subitamente decidida. – Lembro-me de que tinha conhecimento. E era apenas uma maegi.

Pyat Pree deu um pequeno sorriso.

– A criança fala tão sabiamente como uma velha. Dê-me o braço e deixe-me indicar-lhe o caminho.

– Não sou nenhuma criança – mas, mesmo assim, Dany deu-lhe o braço.

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