"As aparências iludem, minha cara", sorriu Tomás. Deixou o momento passar e assumiu o semblante sério necessário para concluir a sua explicação. "Feitas as contas, os Alemães obtiveram quase tudo o que queriam."

"Quase?"

"Os Franceses conseguiram acrescentar ao mandato do Banco Central Europeu a obrigação de políticas de crescimento, e o Pacto de Estabilidade, por insistência francesa, tornou-se Pacto de Estabilidade e Crescimento."

"O famoso PEC."

"Isso. Outra coisa que os Franceses conseguiram, e que veio a revelar-se crucial, foi impedir o estabelecimento de sanções automáticas aos países que violassem os limites do défice e da dívida. Essas sanções foram substituídas por uma vaga ameaça de inquérito por parte da Comissão Europeia."

"Porque dizes que isso foi crucial?"

"Porque retirou eficácia aos limites do endividamento. Se uma criança gulosa for proibida de comer um bolo mas for informada de que, caso desobedeça, nada lhe acontecerá, O que achas que ela fará?"

"Come o bolo, claro."

309

"É por isso que a retirada da cláusula das sanções automáticas se revelou crucial. Sem ela, a imposição dos limites do défice e da dívida tornou-se um verbo de encher."

"Pois, tens razão."

"Ou seja, os compromissos políticos acabaram por derrotar os objectivos alemães de recriar totalmente no euro o perfil do marco", disse.

"Pior ainda, as medidas deixaram de ser coerentes entre elas e criaram buracos na arquitectura monetária europeia. Isso veio a ser uma debilidade crítica da moeda única num contexto de grandes dificuldades operacionais que se previam para o euro."

"Que dificuldades? Estás a falar da crise financeira?" Tomás abanou a cabeça.

"Isso foi depois", disse. "Repara, a existência de uma moeda tem sempre subjacente um estado centralizado. Portugal era um estado centralizado e tinha o escudo, a Espanha era outro estado centralizado e tinha a peseta. O desafio diante da União Europeia era, no entanto, criar uma moeda que não estava associada a um estado. Isso nunca tinha sido feito com sucesso."

"Também nunca tinha sido tentado..."

"Pelo contrário, foi tentado várias vezes na Europa e de diversas formas. No século XIX, por exemplo, a Itália, a Suíça, a França e a Bélgica criaram a União Monetária Latina, a que se juntaram depois outros países, incluindo a Espanha e a Grécia, e que fracassou. Também no século XIX falhou a União Monetária Escandinava. A própria União Europeia tinha feito duas tentativas, o Cobra e o ECU, que falharam igualmente. A verdade é que todas as uniões monetárias bem-sucedidas, como o dólar e outras, tinham como ponto em comum a existência de um governo central unificado com poderes para elaborar um orçamento comum, cobrar impostos, redistribuir riqueza pelas regiões e contrair dívida.

Além do mais, tem de haver mobilidade laborai. Se uma pessoa não consegue trabalho em Évora, vai para Lisboa e isso não é considerado 310

nenhuma tragédia. Se outra não consegue trabalho em Chicago, vai para Detroit. Acontece que nenhuma dessas condições existia ou existe na União Europeia. Não há estado central forte e a mobilidade laborai é risível."

"Então como queriam que o euro funcionasse?", espantou-se Raquel. "Por artes mágicas?"

"Quase", concordou o historiador. "Os políticos europeus, inebriados pela grandeza do projecto, confundiram a realidade com os seus desejos. Os mais lúcidos, por seu turno, sabiam que o euro não funcionaria sem unificação política europeia, mas acharam que a moeda única poderia, com o tempo, levar a essa unificação."

Ouviram um tilintar de porcelanas e viram uma mulher com farda de empregada aparecer no corredor do vagão com um carrinho cheio de pratos e garrafas. Ao sentir o aroma suculento da comida quente, Tomás pôs-se a seguir o carrinho com os olhos.

"Então?", quis saber Raquel. "Estás com fome?" "Claro. Vamos comer?"

"Só se prometeres contar o resto a seguir."

O português tinha tanta fome que já estava a salivar como o cão de Pavlov. Mesmo assim manteve o semblante impassível; desviou o olhar do carrinho para a sua companheira de viagem e sorriu.

"Daqui a pouco já vais perceber o futuro do euro."

311

XLVIII

Havia já algum tempo que Magus abandonara o gabinete, chamado para resolver assuntos urgentes, e deixara os seus homens sozinhos a congeminar uma solução para o problema que lhes apresentara ao convocá-los. Ao fim de meia hora, no entanto, o chefe regressou ao local da reunião e assumiu o seu lugar à mesa.

"Então?", quis saber enquanto ajeitava o casaco. "Como é que vamos montar a armadilha aos nossos pombinhos?"

Перейти на страницу:

Похожие книги