"Para perceber o futuro é preciso entender o passado", voltou a lembrar, a veia de historiador sempre presente. "O euro nasceu formalmente em 1999 e fisicamente em 2 002. Para poderem entrar na moeda única, os países tinham de cumprir os exigentes critérios orçamentais de défice e dívida estabelecidos no PEC, e logo aí começaram os problemas. Imagina que a economia é um automóvel. Para estar no euro, a economia dos países membros não pode ser um Fiat nem sequer um Mercedes. Tem de ser um bólide de Fórmula 1, entendes? Acontece que poucos estados estavam nessas condições, pelo que começou então uma inacreditável ginástica orçamental, com malabarismos sucessivos para se chegar a números equivalentes a competições de Fórmula 1. A Itália inventou um imposto único só para cumprir os critérios, por exemplo, e a França transferiu para o orçamento do Estado o fundo de pensões da France Telecom. A Espanha e Portugal também fizeram os seus truques
de
prestidigitação
para
fazer
desaparecer
despesa
inconveniente."
"Imagino que os Gregos tenham sido os piores..."
"Os Gregos eram tão maus que nem com batota conseguiram entrar no grupo inicial do euro. O seu padrão de comportamento económico sempre foi o de gastos desmesurados e expansão 316
irracional do estado, seguidos de crise, austeridade e incumprimento de dívida, um historial pouco recomendável para a nova moeda. A Grécia era um Mini Cooper pilotado por um perneta zarolho e queria competir no Grande Prémio da Alemanha com o Ferrari do Michael Schumacher."
"Alonso", corrigiu a espanhola com uma risada. "Fernando Alonso."
"Ou esse. O que importa perceber é que o défice e a dívida grega estavam absolutamente fora de controlo." Calou-se abruptamente, numa pausa dramática. "Mas eis que, ó milagre, a economia grega sofreu uma metamorfose espantosa entre 1999 e 2001: o défice desceu para um por cento!" Ergueu as mãos num gesto teatral. "Aleluia! Aleluia! Eis que se produziu o milagre! A Grécia cumpriu os critérios! O Mini Cooper caquéctico transformou-se de um dia para o outro num Fórmula 1 de ponta!"
Nova gargalhada de Raquel.
"Está-se mesmo a ver..."
"Então não está? A manipulação orçamental em Atenas assumiu proporções bíblicas, mas conseguiu o que se pretendia e a Grécia entrou enfim no euro. Para os países com economias mais fracas, como a Grécia, Portugal, Espanha e Itália, também designadas Club Med, estar no euro significava integrar o clube dos ricos. Encarou-se a moeda única como o culminar de um processo e não como o início de um desafio. Foi um erro trágico. O que os palermas dos governantes destes países não perceberam é que estavam na Fórmula 1
e tinham de competir a um nível elevadíssimo de igual para igual com economias super competitivas como a alemã. Uma vez no euro já não podiam desvalorizar a moeda para enfrentar os Alemães nem imprimir dinheiro sempre que estivessem aflitos. A única maneira de sobreviverem era fabricarem produtos que os outros quisessem a preços que os outros estivessem dispostos a pagar. Mais nada."
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"Não sei porquê, mas desconfio que não fizemos nada disso..."
"Claro que não. Os países do Club Med julgaram que tinham entrado de borla numa festa de arromba. E a verdade é que, de início, o euro foi mesmo uma festarola. Integrando uma moeda forte que o Banco Central Europeu apoiava com taxas de juro muito baixas, os países do Club Med descobriram que podiam contrair dívida a juros irrisórios para estoirarem o dinheiro como quisessem. Isto foi agravado pelo facto de que, em 2003, as próprias Alemanha e França violaram os limites ao endividamento estabelecidos pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento e nada lhes aconteceu. Se não se puniam uns, não se podia punir outros, não é verdade? O tiro de partida para o forrobodó foi dado. uma vez com as mãos agarradas ao filão, a periferia da zona euro desatou a pedir empréstimos. Os Portugueses para comprarem casas e fazerem férias e construírem auto-estradas para todas as povoações com mais de cinco habitantes, os Espanhóis e os Irlandeses para alimentarem as suas gigantescas bolhas do imobiliário, os Gregos para... bem, deve ter sido para fazerem moussaka."
Riram-se os dois.
"Pois, já percebi que foi um fartar vilanagem", observou Raquel.
"Confesso que na altura me admirava com o dinheiro que jorrava por toda a parte. Até parecia que crescia nas árvores e era só estender a mão e apanhá-lo..."