"No fundo, foi exactamente o que aconteceu. Mas convém lembrar que o crédito barato não constituiu um fenómeno exclusivo da zona euro. As baixas taxas de juros e o mercado desregulado dos derivados na América geraram grandes quantidades de dinheiro que alimentavam bolhas do imobiliário nos Estados Unidos e no Reino Unido. O que se passava é que esse dinheiro barato fluiu com grande facilidade para a periferia da zona euro, sendo usado de forma totalmente errada pelos sectores público e privado. Em 318
Portugal, por exemplo, o estado gastou o dinheiro emprestado em obras públicas onerosas e os privados em compra de casa própria ou a adquirir automóveis ou até em férias nas Caraíbas ou no Brasil.
Ninguém usou o dinheiro de forma reprodutiva."
"Pois, foi aquele período em que a toda a hora apareciam anúncios na televisão com os bancos a oferecerem empréstimos a juros baratíssimos para o que quer que fosse..."
"Nem mais", assentiu Tomás. "Tudo isso era dinheiro que os bancos da periferia iam buscar ao estrangeiro, nada era riqueza gerada pelos próprios países. Vários membros do Club Med consumiam todos os anos dez por cento mais do que produziam. Pior ainda, como estavam numa moeda forte e fizeram grandes aumentos salariais por razões eleitoralistas, os bens que produziam tornaram-se demasiado caros e ninguém Os queria comprar. De 1999 a 2009, Portugal aumentou os salários da função pública dezassete por cento, enquanto no mesmo período a Alemanha reduziu os salários reais mais de oito por cento. Nestas condições, os Alemães duplicaram as exportações nos primeiros dez anos do euro, sobretudo para os países da periferia. A zona euro dividiu-se entre credores e gastadores, exportadores e importadores, criando assim um desequilíbrio muito grave."
"Mas uma coisa dessas não era previsível?"
"Claro que era. O problema é que os governantes do Club Med, todos eles com cartão de sócio e quotas pagas no Clube dos Imbecis, resolveram fingir que nada disto estava a acontecer e optaram por viver no mundo da fantasia. Essa fantasia era sustentada pelo facto de que, mais do que económico, o euro sempre foi um projecto político."
"Pois, já contaste. Foi a forma inventada pela França de atar a Alemanha."
"Os economistas que trataram dos pormenores estavam plenamente conscientes dos enormes perigos encerrados pela criação de uma moeda única numa área heterogénea e sem estar submetida a 319
um poder central unificado, mas tinham esperanças de que, no plano económico, o euro constituísse uma espécie de catalisador da mudança nos países do Club Med. Essas esperanças revelaram-se uma ilusão. já Marx o dizia: a economia é a infra-estrutura de uma sociedade. O euro foi uma tentativa de impor um projecto político sem a infra-estrutura económica estar instalada. Não podia resultar."
"Mas resultou, Tomás", argumentou a espanhola. "Basta ver que durante anos correu tudo bem."
"O teste à solidez de uma moeda nunca é feito nos tempos bons, minha cara. A União Monetária Latina, a União Monetária Escandinava, o Cobra e o ECU correram muitíssimo bem nos tempos de prosperidade, mas entraram em colapso quando vieram as adversidades. Da mesma maneira, o euro correu bem enquanto o crédito estava barato e eram tudo rosas. Mas será que a moeda única resistiria a um abalo negativo da economia? O teste estava por fazer."
O olhar verde-turquesa de Raquel iluminou-se.
"A crise financeira de 2008 foi esse teste..."
"Com certeza", confirmou Tomás. "A queda do Lehman Brothers, como já te expliquei, desencadeou uma crise de confiança na banca internacional. Ninguém sabia quem estava na posse das securitizações de hipotecas insolventes e, como medida de precaução, os bancos deixaram de emprestar dinheiro uns aos outros, receando perdê-lo. O
crédito foi cortado e o dinheiro parou de jorrar para a Europa. Os bancos europeus ficaram sem dinheiro e também deixaram de emprestar, começando primeiro por cortar o crédito às economias emergentes do Leste da Europa, como os países bálticos, a Hungria, a Roménia, a Bulgária e a Ucrânia, e depois à periferia da zona euro.
Sem acesso ao dinheiro, ao fim de algum tempo as empresas desses países começaram a falir, atingindo os bancos a que deviam empréstimos e provocando um efeito dominó que se estendeu aos 320