países do centro. A Alemanha, a França, a Grã-Bretanha e outros países do centro europeu viram-se forçados a salvar os seus bancos da bancarrota, enquanto o FMI teve de ajudar a Hungria, a Islândia, a Bielorrússia, a Ucrânia e a Letónia. Como as empresas fechavam e as pessoas ficavam no desemprego, diminuíram as receitas dos impostos e aumentaram as despesas com subsídios de desemprego."

"Exactamente como em 1929."

"Pois, a contracção da economia mundial em 2008 e 2009 foi igual à contracção ocorrida entre 1929 e 1931." Levantou um dedo.

"Com uma diferença. Em 1929 os estados evitaram inicialmente intervir no processo. Um economista britânico, John Maynard Keynes, estudou a resposta ao colapso de Wall Street e concluiu que, numa época de retracção do mercado, cabe aos estados usarem os seus excedentes orçamentais e despejarem dinheiro na economia para criar procura e reactivar o consumo dos bens produzidos nesses países.

Keynes defendeu, por exemplo, que era melhor pagar a uma pessoa para abrir e fechar buracos do que deixá-la no desemprego, uma vez que, com dinheiro, ela pode gastá-lo a comprar produtos do país e assim reavivar a economia."

"Faz sentido..."

"Pois faz", concordou Tomás. "O que aconteceu foi que, tendo sido educados nas doutrinas de Keynes sobre como reagir a um colapso destes, os diversos governantes europeus e americanos decidiram seguir essa receita e anunciaram pacotes multimilionários para salvar a economia. Parecia uma competição, com cada país a dizer que ia derreter mais dinheiro que o outro. Até a Grécia e Portugal, que não tinham dinheiro para mandar cantar um cego, anunciaram pacotes de milhares de milhões de euros! Chovia dinheiro de todos os lados!"

"Mas isso não resultou..."

"Nem podia resultar! Keynes tinha previsto que os estados 321

usassem o excedente dos tempos bons para reactivar a economia nos tempos maus, mas a verdade é que não havia excedente nenhum.

Como o Club Med e outros países passaram os tempos bons a acumular défices, não sobrara dinheiro para usar em período de crise. Além do mais, Keynes foi muito claro em estabelecer que a injecção em massa de dinheiro público só deveria ocorrer em situações de emergência, mas os governantes passaram a aplicar essa solução a toda a hora. As economias tornaram-se viciadas nessa receita pseudokeynesiana, o que fez com que ela perdesse eficácia. É

um pouco como a droga, estás a ver? Se experimentares um bocadinho de droga, ela faz um efeito tremendo. Mas se continuares a usá-la, ela vai perdendo efeito até acabar por se tornar ineficaz.

Dar mais droga não resulta, desmamar é doloroso. O mesmo se passa com a receita económica pseudokeynesiana. Por fim, e decerto o mais importante, Keynes concebeu as suas soluções para mercados fechados e protegidos, como eram os da sua época, em que, ao dar dinheiro às pessoas, elas iam consumir produtos fabricados nos seus países, reactivando assim a economia doméstica. Mas o mundo mudou e as economias derrubaram as suas protecções e abriram-se.

Isto quer dizer que, quando o estado português ou espanhol pede dinheiro emprestado ao estrangeiro e o entrega aos seus cidadãos para reactivar o consumo, as pessoas vão aos supermercados e põem-se a comprar produtos importados."

"Ah, estou a perceber!", exclamou Raquel. "Isso quer dizer que essa solução keynesiana deixa de financiar a economia do país e passa a financiar a economia estrangeira, não é? Se assim é, o único efeito prático da injecção de dinheiro é o aumento do défice orçamental e do défice externo."

"Isso mesmo! Assim, quando esta crise rebentou, e inspirados em ideias keynesianas mal interpretadas e já desajustadas da nova ordem internacional de mercados abertos, os países decidiram endividar-se 322

ainda mais para enfrentar a emergência da dívida! Era como se uma pessoa corresse para o abismo e se convencesse que se salvaria se corresse ainda mais depressa! Ou seja, os governantes decidiram contrair dívida para combater a dívida, injectando dinheiro que imediatamente saía para o estrangeiro e montando desse modo um verdadeiro esquema piramidal que entraria inevitavelmente em colapso quando os emprestadores deixassem de emprestar!"

"Valha-me Deus!", exclamou Raquel. "E ninguém viu isso?"

O historiador ergueu um dedo.

"Só um país é que chamou a atenção para essa loucura", exclamou.

Piscou o olho. "Não consegues adivinhar qual?"

Raquel riu-se.

"Não me digas que foi a Alemanha!..."

Tomás fez que sim com a cabeça.

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