"Enquanto os Americanos e os restantes europeus pregavam as virtudes da despesa ilimitada, os Alemães disseram que não participariam nessa corrida insensata e avisaram que ninguém pode viver acima das suas possibilidades durante muito tempo. Na verdade foram eles os primeiros a observar que o dinheiro barato era a causa da crise e que a crise não podia ser resolvida com mais dívida."
"Foi assim que começou a crise das dívidas soberanas?"
"Foi assim, mas não só. Na verdade, a zona euro actuou inicialmente como tampão. Se reparares, os primeiros países a sofrer o impacto da crise não pertenciam à zona euro. As economias da Islândia, dos países bálticos e do Leste europeu sofreram colapsos imediatos e os Islandeses começaram até a pensar se não seria melhor aderirem ao euro para se protegerem."
"Lembro-me disso", confirmou a espanhola. "Então como se desencadeou a crise do euro? Foi com a Grécia, não foi?"
"Tens de ter presente que os investidores perderam muito dinheiro com o colapso financeiro. Quem tinha acções perdeu milhões. Quem 323
possuía obrigações, em alguns casos também ficou a ver navios. Os bancos deixaram de emprestar dinheiro e os investidores, escaldados com as perdas, começaram a rever os seus investimentos. Não tinham sido as agências de rating a dar classificações AAA às securitizações tóxicas? Se as agências erraram na avaliação dessas securitizações, em que outras avaliações teriam errado também? Os investidores estavam muito nervosos e, receando perder dinheiro, puseram-se a estudar os seus investimentos com olho clínico."
"Foi aí que deitaram o olho à Grécia..."
"Na verdade não foram os investidores que chamaram a atenção para a Grécia", corrigiu Tomás. "Foram os próprios Gregos."
"Estás a gozar!..."
"A sério. Quando se começou a tornar claro que o aumento das despesas não estava a resolver coisa nenhuma, o governo conservador da Grécia, que tinha aldrabado contas e aumentado criminosamente a dívida do país, defendeu por fim um congelamento dos salários. Os socialistas disseram que a austeridade não resolvia nada, que só sairiam da crise da dívida a endividar-se ainda mais e outras baleias pseudokeynesianas que dão votos mas não levam a lado nenhum a não ser a uma catástrofe ainda maior. Em Outubro de 2009 a Grécia foi a votos e os eleitores, cansados da crise, elegeram os socialistas e as suas promessas risíveis de que iriam acabar com a austeridade.
Logo que chegaram ao governo, e preparando-se para renegar as promessas que de antemão sabiam ser irrealistas, os socialistas acusaram os seus antecessores de terem aldrabado os números. O
esquema era o habitual. Queriam alegar que tinham prometido acabar com a austeridade mas, ó desgraça!, quando chegaram ao governo descobriram que afinal a situação era muito pior do que haviam imaginado e outras tretas do género, pelo que teriam de manter a austeridade."
"Aqui em Espanha os políticos fazem o mesmo, seja qual for a cor 324
política", observou Raquel. "E em Portugal?"
"A mesma coisa, fica descansada", confirmou ele. "Para provar que a situação era pior do que pensava, o novo governo revelou que o défice orçamental desse ano não seria de quatro por cento, como tinha sido afirmado pelos seus antecessores, mas de doze. O que eles não imaginavam é que essa conversa para tolos estava a ser seguida pelos investidores internacionais, que andavam muito nervosos com a segurança do seu dinheiro. A Grécia tinha afinal doze por cento de défice? Os investidores foram consultar as suas carteiras de investimentos e muitos deles descobriram que haviam adquirido ao longo do tempo imensas obrigações gregas. Seriam seguras? A Grécia iria pagá-las? O nervosismo instalou-se. Não seria melhor desfazerem-se daquelas obrigações enquanto iam a tempo?"
"Ah!", exclamou Raquel de olhos arregalados. "Foi aí que se puseram a vender..."