"Muitos sim, mas a maioria pensou assim: bem, a Grécia está na zona euro, portanto os Alemães garantem a coisa, não há problema. E os investidores ficaram relativamente descansados, embora permanecessem atentos. Acontece que se realizou logo a seguir uma cimeira europeia e no final os jornalistas lançaram umas perguntas aos líderes europeus sobre o défice da Grécia. Esses líderes responderam que aquele problema era exclusivamente grego e chamaram a atenção para a cláusula de no-bailout que constava do Tratado de Maastricht, a qual, na essência, estabelecia que nenhum país da zona euro era obrigado a pagar as dívidas de outro. Ao ouvir isto, os investidores caíram em si. Perceberam nesse momento que a Grécia não tinha dinheiro para pagar o que lhe tinham emprestado e que ninguém assumiria essa dívida. Em pânico, puseram-se de imediato a vender as obrigações da dívida grega."
"E as agências de rating?"
"Essas também estavam escaldadas com os erros que tinham cometido nas avaliações das securitizações tóxicas americanas e 325
perceberam que haviam sobrevalorizado igualmente a segurança das obrigações gregas. Portanto começaram a baixar-lhes a nota."
"Como é que isso se estendeu ao resto da zona euro? Como chegou a nós?"
"Foi o mesmo mecanismo. Vendo que havia uma cláusula de no-bailout no tratado que criara o euro, os investidores puseram-se a inspeccionar as contas de todos os países da moeda única e descobriram enormes vulnerabilidades em algumas delas. O
nervosismo alastrou. Os investidores tinham nas mãos obrigações emitidas por Portugal, Espanha, Irlanda e Itália e começaram a perceber que só recuperariam o dinheiro no Dia de S. Nunca à Tarde.
Portanto toca a vendê-las enquanto podiam! O problema é que ninguém as queria comprar. O mercado das dívidas soberanas paralisou e os países do Club Med, que viviam à custa de dinheiro emprestado, deixaram de ter quem lhes emprestasse."
"Foi um ataque brutal dos mercados, hem?"
"Qual ataque? Isso é conversa de idiotas que tentam tapar o sol com a peneira e sacudir a água do capote das suas próprias responsabilidades, atirando as culpas para uns bodes expiatórios sem rosto visível! É verdade que, devido aos mercados de derivados não regulados, surgiram produtos que permitem ganhar dinheiro a quem aposte que determinado país vai à bancarrota, como é o caso dos credit default swaps. Esse esquema desempenhou decerto um papel, embora isso só fosse possível porque esses países se puseram a jeito. No essencial, contudo, o que se passava é que os investidores, incluindo fundos que geriam pensões de reforma, perceberam de repente que, se emprestassem dinheiro a países que viviam de dívidas, nunca mais iam vê-lo." Indicou a sua interlocutora. "Imagina que eu estava desempregado há dez anos e ia ter contigo com umas calças rotas e pedia-te que me emprestasses vinte mil euros para eu ir passar férias às Caraíbas e dar entrada para a compra de um Mercedes e de 326
uma vivenda com piscina no Mónaco. Se isto fosse uma situação real, emprestavas-me?"
"Claro que não!", riu-se Raquel. "Dizia-te que tivesses juízo e fosses mas é trabalhar!"
"Pois foi isso justamente o que os investidores nos disseram."
Simulou um diálogo. "Querem dinheiro? Primeiro arranjem emprego e um rendimento fixo e depois falamos." Retomou o tom normal. "Com as calças rotas na mão, fomos a correr de mão estendida para a Alemanha a exigir que eles pagassem as nossas dívidas. Os Alemães ficaram especados a olhar para nós. Olhem lá, perguntaram eles, não leram a cláusula de no-bailout no tratado que assinaram? Não foram avisados de que são vocês que pagam as vossas dívidas? Porque não respeitaram os limites de dívida e de défice a que se comprometeram por escrito?"
Raquel arregalou os olhos.
"Madre mia, boas perguntas..."
"Então não eram? Os europeus em geral, e Os do Club Med em particular, estavam habituados à Alemanha do livro de cheques.
Assombrada pelas suas terríveis responsabilidades no matadouro da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto judaico, a Alemanha viveu décadas em expiação. Era preciso uma auto-estrada em Portugal? Os Alemães pagavam. Era preciso financiar as férias dos pobres na Grécia? Os Alemães pagavam. Era preciso um comboio de alta velocidade em Espanha? Os Alemães pagavam. A Alemanha usou o livro de cheques para se redimir do seu passado horroroso e prosseguiu essa política durante décadas e décadas. A França apontava o caminho político, a Alemanha cobria os custos." Cortou o ar com um gesto enfático. "Mas isso mudou."